Casmurro sem teto

"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma" (Fernando Pessoa)

Casmurro sem teto

"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma" (Fernando Pessoa)
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Terra Blog

30.12.07

Mudanças

Aproveitando o clima de mudanças do fim de ano, já anuncio uma delas: este blog mudou de endereço.

Acessem:  http://casmurrosemteto.blogspot.com/

Já há um texto novo por lá...

Abraços,

Feliz 2008 a todos!

07.08.07

Noturna Presença I

Devido à porcaria do provedor Terra, o texto "Noturna Presença" está dividido em duas partes. Sim, isso é ridículo. Fica aqui o meu protesto.

 

   Ele se aproximou de mim como se quisesse me pedir algo e havia no seu olhar uma doçura por mim desconhecida, uma candura trapaceira, uma aura angelical. Foi quando, não sei bem como, lancei meu corpo para frente e mergulhei no líquido espesso e verde dos seus olhos vítreos. Estava eu todo imerso na mistura densa borbulhante, quente que estava. Até que senti que uma enorme esfera negra e de parede rija crescia em espasmos rítmicos e ensaiados e expandia-se, avolumava-se silenciosamente. Meus pés cresciam e eu descia ao fundo imantado e gelado, eu parecia senti-lo, tocá-lo qual lâmina espelhada e fria. Fria também ficava a superfície do líquido e da bola negra e lisa que, a alguns centímetros de mim, girava atiçando altas ondas e pela primeira vez molhei a ali meus cabelos. Ergui a mão para retirar partículas que grudavam insistentemente em minha pele. A bola negra andou querendo esmagar-me.
   Acordei do sonho em meio ao grito esfregando minha cara com força. Respirei fundo duas ou três vezes, até recompor-me sentado na cama com as mãos amassando o lençol algodoado azul desbotado. Abri a janela e um vento violento me atingiu e tinha gosto parecido com hortelã. Fazia frio mas durante o dia fizera calor, tanto que eu e Raquel acordamos cedo, transpomos o riacho descalços, escalamos o segundo morro depois da centenária figueira para colhermos laranjas, o pé carregado. Podres!, exclamou Raquel limpando as mãos sujas de terra no vestido verde ornado de flores brancas, estas laranjas estão podres! Não acreditei, arranquei-lhe das mãos a mais polpuda fruta das cinco que ela segurava, passei-a próxima do nariz, apalpei os pólos achatadoos e escurecidos de fungos. Olhamo-nos incrédulos e descemos à casa.
   - Parece que o Tom sumiu de vez – disse ela corendo para os maracujás, cheirosos e fartos. Pegou um sacudiu-o perto do ouvido, dançou ao redor de mim como se fosse a fruta um instrumento musical, balançava-se e levava uma flor na cabeça, a flor do vestido! – Será que ele volta?
   - Acho que sim. Amanhã é domingo, é dia de festa depois da missa. Tia Cora dará um almoço para o padre. Sempre tem bons restos de comida para o Tom, pedaços gostosos de pernil. Ele sabe, ele vem.
   - Gato bem do folgado. Folgado demais, ouviu? – disse jogando o maracujá no chão – Duvido que volte. Deve estar por aí ou então achou um novo dono.
   Calei-me. Retrucar com Raquel era pura ignorância. Ela correu até o avarandado, sentou-se e cruzou as penas. Acho que ainda disse mais algumas palavras que não entendi. Ela nunca gostou do Tom. Dizia que ele era gordo, folgado, que soltava pêlos pela casa como um rastro. Especialmente porque Tom elegia a sua cama como o melhor lugar para dormir, ato quase sacro que realizava durante um terço do dia, esticado, preguiçoso, inconseqüente e vadio. A cama alta de madeira clara, o Olimpo.
   - Lembra-se do que sua mãe dizia? – disse Rachel limpando as unhas cheias de terra com um pedaço de arame que achou.
Balancei os ombros e sentei-me ao lado dela.
   - Ela dizia que um gato nunca morre em casa. Que quanto ele se sente doente, ele foge para morrer longe da casa onde viveu. Por que será?
   Elevei a cabeça levemente como se um trem viesse em minha direção a toda velocidade, as luzes no meu rosto, os olhos escuros de Raquel, a bola escura me espremendo, o líquido! Corri para longe dela, atravessei o riacho, passei pela figueira e entrei em casa. Por que Raquel foi me falar justo aquilo? Bastarda! Falasse do Tom, mas precisava falar da mamãe? Eu poderia voltar lá e dizer que minha mãe pelo menosnunca fora um bêbada e nunca esteve internada numa clínica de recuperação, caída de bêbada depois de se mamar um litro de cachaça, a mão furada por um pedaço de vidro da garrafa, os cabelos emaranhados na cara escura. Eu diria isso aos berros, sua mãe é uma doente!     
   Mas, não, não teria coragem. Sentei-me na cama e acho que dormi a o resto da manhã e a tarde toda só acordando agora depois do sonho.
Eu mergulhava nos olhos de Tom, gato manhoso, de pele rajada e meio escurecida com o tempo. Quando filhotinho, era alvo, quase não tinha as listras carameladas. Cresceu, engordou, os bigodes ficaram mais tesos, as patas mais grossas, os dentes mais afiados. Ele chegou aqui ainda pequenininho, cabia quase todo na palma da minha mão, eu o acarinhava e ele arisco. Quando me mordeu pela primeira vez, atirei-o ao chão, não quero mais esse gato, mãe! gritei com ódio. Mamãe veio da cozinha, olhou-me, sorriu com indolência e voltou.

 

(...)

Noturna Presença II

     (parte II)

 

     Batizei-o Tom por falta de nome melhor, creio eu. Raquel chegou a sugerir um nome que parece-me que era o nome de seu cantor favorito. Nome estrangeiro, ela dizia, nome estrangeiro. Refutei. Mamãe sugeriu um nome estranho que também não acatei. Pus Tom e sempre gostei muito. Era de fácil pronúncia e de fácil identificação. Eu e Rachel, ainda crianças, pegamos uma folha do escritório do tio Alberto, duas canetas e escrevemos uma certidão de nascimento do gato, este é o senhor Tom, Tom? É Antônio, Raquel, mas ele não gosta de ser chamado assim – dizia e levava minhas mãos às orelhas do gato que me olhava com a ironia atravessada e certeira.
   Por que esse senhor não gosta de ser chamado de Antônio?, perguntou ela pegando da pata de Tom e mergulhando na almofada de tinta. Impressão digital, ela dizia. Pressionou a pata contra o quadrado no topo da página, Tom miou de descontentamento. Solta isso, eu disse, que você não sabe lidar com gente e muito menos com gato.
   Por que esse senhor não gosta de ser chamado de Antônio se trata-se do nome dele?, repetiu Raquel levemente irritada, irritava-se fácil quando criança assim como Tom. Não gosta e pronto!, disse e ameacei levar comigo a certidão de nascimento ainda incompleta. Essa desculpa não me convence! Raquel pegou Tom no colo, acarinhou-lhe a cabeça sem muito amor ou afinco e me indagou mais uma vez.
   Não gosta porque. Porque ele não quer que saibam que ele se chama Antônio. Se descobrirem, ele está perdido, perdido! Ninguém pode saber, ouviu? Caso te perguntem se há algum Antônio nesta casa, diga que não há! Há sim um Tom, um gato, que nada tem a ver com o tal Antônio. Raquel riu e largou o gato no chão. Isso me parece furado demais, afirmou desafiando-me. Burra!, bradei assinando meu nome da certidão, burra que nem entende de pseudônimos.
   Havia um prazer secreto em pronunciar palavras estranhas na frente de Raquel que era cheia de se achar superior a mim. Guardei a certidão em algum lugar, ou Clementina jogou fora, aquela negra intrometida mexe nas minhas gavetas, lê minhas cartas, meus papéis, tira meus livros da ordem. Ela maltratava muito o pobre Tom, gato dos infernos! Não fale assim com ele, Clementina!, e olhava para a mulher alta e larga, escura e forte, incômoda e maternal. Ela ria-se sozinha enquanto espanava o pó cantando corimas e partidos da terra dela, a voz grossa, gato dos infernos!
   Depois que mamãe morreu, Tom tornou-se meu único amigo e companheiro. Raquel passou a viver com o pai na cidade e vinha aqui apenas uma ou duas vezes por mês. Sentia saudades dela, confesso. Tom também sentia, eu acho. No fundo, gostava dela, da Clementina, da tia Cora. Eu encarava seus olhos que transbordavam, à noite o núcleo negro crescia e tomava quase o espaço todo. Durante o dia, era apenas um filete imperceptível pela camada vítrea iluminada pelo sol.
   E faz duas semanas que Tom foi-se embora. Não é a primeira fez. Na primeira vez em que ele desapareceu mamãe ainda era viva. Rezamos um terço sob instrução de tia Cora, pedimos a Santo Expedito, ameacei ir de joelhos até a igreja de Nossa Senhora do Paraíso, folheava a bíblia durante a noite, pedia desesperadamente, sem vocativo específico, que Tom voltasse. No quinto dia, ele voltou, a orelha rasgada em carne viva, a pata manca, o olhar que dizia: estou bem mais quero descansar. Não permiti.  Abracei-o, contei-lhe tudo o que sofremos por ele, contei as rezas, as promessas, os mistérios gloriosos, os mistérios gozosos, e expliquei-lhe a indumentária do terço. Ele gostava de ouvir mas pestanejava de sono e canseira.
   Depois, sumiu várias vezes mais e sempre voltou, são e salvo. Mas duas semanas? Não, nunca ocorrera. “Um gato nunca morre em casa”. Tom deve ter se sentido mal e, por algum instinto que desconheço, fugiu para aliviar minha dor. Será? Mas nem se despediu? Nem roçou em minhas pernas como sinal de agradecimento ou amizade? Bastardo! Está onde agora? Esbaforido, numa encruzilhada, com a pele seca pelos raios solares, as feridas solidificadas, o sangue manchando o pêlo de que cuidei tão bem, com tanto desvelo, só Deus sabe.
   Depois de sonhar com ele, enquanto o centro negro do olho se aproximava, ouvi um barulho e acordei de súbito. É ele!, pensei. Não era. Talvez algum cachorro ladino entrou aqui, sempre entram durante a noite. Por isso, Tom sempre dormia ao lado da minha cama. Mantia-o seguro, protegido, resguardado por mais um dia. “Um gato nunca morre em casa”.
    Fiquei ainda na janela a fitar o céu e as poucas estrelas opacas. Não havia Lua. Perdi completamente o sono. Sentia-me ainda impregnado daquele líquido verde que escorria pelos braços, pelas pernas e eu sendo espremido, socorro! O olho! A parede de vidro quase estourando em mil pedaços minúsculos insuspeitados.
    Voltei a me deitar na cama. Olhei para o teto. Para o chão. Para o lugar do Tom. Para a porta entreaberta deixando escapar um fio de luz rósea. Clementina certamente assistia à televisão na sala. Devia cochilar à essa altura. Ouvi outro barulho. Pulei da cama rapidamente e me encostei à janela. Debalde. Certamente, outro cão ou um gato qualquer. A noite tão profunda e tão simples, ausente multipilicando-se, tomando conta de tudo,  inundando-nos de oxigênio líquido e negro, trazendo poeira cósmica e poeira do assoalho barulhento, doze tábuas, eu contava quando criança, atravessava o quarto contanto as placas de madeira.  Nesse escuro milagroso , a silhueta de Tom se perdia como se fosse um fio tecido à enorme manta. Tentava entender como Clementina fazia crochê, acompanhava com o dedo a linha que depois de desdobrava, virava outras e virava uma gola que virava uma manga que virava uma blusa, toma, é para você. Tom tecido no escuro e o hálito de hortelã batendo na minha cara com um leve gosto de licor no fundo da boca.



Marcos Vinícius Ferrari

21.06.07

O pescoço

Vitor chegou me pedindo um texto para que ele interpretasse no Sarau Macabro que, inclusive, aconteceu hoje na escola. Encomendou-me um texto e eu estava naqueles tempos com uma idéia na cabeça ainda confusa. Aí perguntei-lhe ao certo o que queria e me pediu a história  de um ator.
Hoje ele deu vida ao texto no Sarau; e aqui está "O pescoço"  que, diga-se de passagem, foi o mais comentado da tarde. Essa parceria autor-ator vai longe...


   Sim, o espetáculo de hoje foi bom. Ou não. Não sei, ultimamente todas as noites têm sido iguais. Igualmente melancólicas. A Lua. Essa esfera de leite morno, excelsa e bela. E eu, com a boca aberta esperando que ela se derrame inteira. O céu é sempre o mesmo, grave e negro sobre nossas cabeças. Há estrelas vagas e opacas que estão perplexas e hesitam parecendo cair; há um silêncio metálico. E se olho para o céu, mais abissal é a minha alma. Sou um abismo. Sou um vão. Sou um hiato. Ah...o teatro hoje estava vazio, talvez mais vazio do que ontem. Apenas um terço das cadeiras estavam ocupadas. Não costumo olhar para o o público durante o espetáculo mas, se olho de esguelha, enxergo pontos coloridos bordados na paisagem esfumaçada e escura. Havia hoje gente dispersa, desatenta, mal-educada...malditos!
   Eles, entretidos com algo que eu desconheço, nem perceberam quando meus dedos...Meus dedos! Que tocam com asco as paredes velhas desse teatro. Mas eu não reclamo. Estou vivo quando interpreto e sacio, como um animal bravio, essa fome implacável. Sinto-me vivo e alerta. Sinto, talvez, comunhão. Pareço integrado a estas paredes; à cortina arroxeada de veludo; à lâmpada que fria que, com sua luz avara, desnuda as órbitas de poeira; ao carpete úmido e fétido; às tábuas soerguidas do palco emadeirado e vermelho. Tenho uma crença arrebatadora nessas coisas. Em tudo, eu vejo fome e desejo de viver. Vejo um respiro ainda que último das coisas inanimadas. Vida! E eu vi vida no pescoço moreno de Regina quando entrelacei meus dedos nele. E senti que nele pulsava sangue e havia quentura, movimento, pulsação.
   Faz um mês que eu, Regina e a nossa companhia de teatro representamos essa peça. É de um autor russo. Será que é russo mesmo? Não sei, eu é que costumo associar nomes difíceis à literatos russos. Talvez seja húngaro. A peça conta a história de uma rainha que, ao final, é morta pelo seu amante. No caso, eu faço o amante. A última cena é catártica. Estou sempre atrás da catarse, da explosão. Mas tenho medo. Tenho medo de não resistir. Tenho um medo enorme de sucumbir à explosão. Mas as coisas em- mim e eu dentro das coisas. Às vezes, a explosão é necessária, vital.
   E deixa marcas impossíveis de serem apagadas. Parece que minhas mãos involuntariamente esculpem o pescoço rijo de Regina. E minhas duas mãos dançando sobre ele, insignes e fortes. E ao fim da dança, eles afundaram. E pressionaram os músculos de Regina, aquela atriz tão talentosa e tão bela. Meus dedos envolveram o pescoço de Regina e eu parecia tocar o cânhamo central, as cordas, as veias, o sangue pastoso. Eu fazia a carne chocar-se com a carne obstruindo todos os espaços por que o ar passaria. Os dez dedos ágeis ficaram mais espaçados e distantes. Pude embrenhá-los na pele grossa e deixei seu pescoço mais fino e delgado. A pele tornou-se elástica e empalideceu-se completamente.
   E havia uma realidade tão pulsante que, nesse momento, creio que a pletéia voltou-se para ver o fechamento dramático. Mal sabiam eles até que ponto a realidade se aproximava da ficção; até que ponto eu era o amante enredado e ela, a rainha adúltera? Até que ponto eu era um meramente ator e ela uma atriz? Não sei novamente. As cortinas se fecharam e ouvi o som abafado das palmas efusivas e doídas. Regina tinha os olhos vítreos mas não me acusava. Seus olhos tampouco pareciam pedir socorro. Eles imprimiam certa comiseração, certa pena, certa compaixão. E isto me enfurecia ainda mais, e eu agia com ainda mais virulência, o olhar transparente. Ah...
   Deitei o corpo de Regina no chão e vim para o camarim. Andei sem pressa, apesar da respiraçao curta e cansada. Fico assim em algumas noites e é absolutamente normal. O público, imagino, deve ter saído espantado e encantado com um espetáculo verossímil como o foi nesta noite. Todos sozinhos na noite fria e macilenta. Largados na névoa recortada pelas luzes aniquilantes.
   Tenho vontade de gritar. Tenho também um ímpeto de voltar até a cochia e espiar o corpo de Regina, prostrado. Ela, vestida naquela manta cor de malva, elegante e refinada como uma personagem de rainha lhe exigia. Os lábios exíguos. As sombrancelhas grossas. Estou agora epifânico e glorioso. Devo agora ir embora, deitar-me, tomar alguma coisa e sonhar os mesmos sonhos de sempre. Os labirintos. Amanhã, não teremos espetáculos, meu Deus, e os ingressos já comprados? A arrecadação da peça não anda boa e também precisamos de uma substituta à altura para Regina. E mesmo que me venha uma nova atriz, ao olhá-la, lembrarei-me da revestidura frágil de vidro dos olhos de Regina. E minhas mãos novamente adquirirão o formato perfeito do pescoço, como um escultor que prepara com desvelo mais uma estátua ebúrnea e gelada.



Marcos Vinícius Ferrari

08.06.07

Maria Sorriso parte I

   Devido ao carniça do Terra que limitou os caracteres, o texto está dividido em duas partes. Ele começa aqui e termina no post abaixo.  ;)

 


   Quando cheguei à cidade de Boa Esperança e perguntei por Maria Sorriso, não obtive resultados de pronto. Era eu um jornalista que me formara havia pouco e ainda guardava qualquer coisa de insegurança e paixão. Não à toa fui o escolhido dentre uma dezena de outros jornalistas da redação para pesquisar sobre a vida e o mistério que envolvia Maria Sorriso. Mas digo que, ao cheguar àquela cidade fumegada pelo lábio seco do Sol e embalada pelas cantigas das negras prostradas nas varandas, não via possibilidade de êxito. Não havia resquícios da morte de Maria, que talvez tivesse escapado por entre o falar das gentes. Foi só lentamente que eu descobri coisas a respeito dela – primeiro, a casa em que vivia, depois as roupas, depois o endereço de um neto e por fim, o lugar em que foi enterrada vestida naquela túnica azul, esmaecida e coberta por flores pálidas e murchas. “Quando a tampa escura do caixão tampou o estojo, ela ainda sorria”, garantiu-me o neto.
   Maria, segundo a certidão de nascimento borrada que encontrei em meio à suas coisas, nascera numa cidadezinha pequena do Maranhão. Viera para São Paulo ainda jovem. E segundo a certidão de óbito, ainda fresca nos registros municipais, ela morrera numa tarde turva e mole de abril. A causa mortis, entretanto, era dada como desconhecida. Dobrei a certidão em quatro e coloquei-a no bolso ao sair do cartório sem ser percebido. Foi a partir daquele ponto confuso e intrigante que iniciei minha investigação a respeito de Maria Sorriso. Em seis meses, entrevistei cerca de quarenta pessoas, habitantes ou não de Boa Esperança. Tudo ficou registrado em meu gravador e em cerca de dezesseis fitas que, transcritas, equivaleram a seis cadernos escolares cheios. Ainda somo a este material recortes de matérias ou notas em jornais da região, tendo encontrado uma pequena e invisível nota de rodapé sobre Maria num jornal do Rio de Janeiro. Quando tinha já completas as entrevistas e as buscas, fui encontrar-me com dois médicos especialistas de São Paulo e fiz-lhe perguntas a respeito das possibilidades da verdadeira razão do óbito de Maria, encoberto por nuvens de ceticiscmo e folclore, fosse verossímil. Assumo que ter conhecido a vida Maria assemelhou-se a uma avalanche em mim-mesmo de modo que me encontrei diferente daquele jornalista pueril cheirando a sândalo do começo quando enfim publiquei “A história de Maria Sorriso”, que alcançou inacreditável sucesso de vendas e editoração. Vou lhes contar, em linhas gerais, a história de Maria ou Maria Sorriso.
   Ela morava numa rua estreita às margens do córrego do Cabrito, ponto limítrofe entre Boa Esperança e a cidade vizinha, Santa Isabel das Águas. A casa de Maria era pequena e de taipa de pilão. Apenas dois cômodos: num ficava o seu quarto composto por uma cama de madeira sobre a qual estava colocado um colchão fino, velho e cheirando à umidade e a fezes de rato. Ratos, baratas e toda sorte de insetos costumavam invadir a casa de Maria, talvez em busca de um lugar que fosse minimamente melhor que o esgoto. As paredes eram infiltradas, tomadas por rachaduras e cortadas por fios escuros que se estendiam do teto até o chão. Noutro cômodo, ficavam a cozinha – uma geladeira advinda da doação de uma patroa, uma mesa de pernas tortas e um fogão de quatro bocas em que apenas uma delas funcionava – e a sala – um sofá com cor-de-vinho com duas grandes fendas nas extremidades, uma televisão que captava apenas duas emissoras e uma prateleira de madeira sobre a qual estava aberta uma Bíblia no salmo 91. As folhas da Bíblia amarelecidas pelo tempo. Eu lhe mostrarei a salvação, diziam os versos escritos em letra miúda. Maria Sorriso gostava de lê-los repetidas vezes tornando-se assim a única coisa que lia, mesmo sem ser religiosa.
   Maria enviuvara cedo, logo após nove anos de casamento. Seu marido, Odílio da Conceição, saira certa vez para comprar cigarros e nunca mais voltou. Maria cuidou então dos quatro filhos do casal. Naquele tempo, surgiram especulações sobre o paradeiro de Odílio. O mais aceitável era o de que ele arranjara uma amante e estavam vivendo numa pensão próxima ao porto, local em que uma das vizinha havia visto – mesmo que de longe – Odílio. Maria sofrera de início, mas não chorara. Teve de começar a trabalhar para sustentar Odílio Júnior, Jorge, Pedro Henrique e Francisco. Durante vinte e um anos foi doméstica. A cara negra de Maria respingava e aquecia-se cheia de gotas de suor enquanto trabalhava arduamente afundando os braços fortes e cor de azeviche nos vasos sanitários. Lustrava os móveis, esfregava com volúpia e cadência as roupas sujas da patroa no tanque – descartando a máquina de lavar por certo orgulho e obsolecência –, cozinhava, passava as roupas com o ferro de passar pesado e fumegante. Entrava às sete e, geralmente não tinha horário fixo para sair. Sua patroa, a dentista Marta gostava de Maria, que segundo ela, era prestimosa, habilidosa e “tinha sempre o sorriso no rosto”. O sorriso. 

(...)