Casmurro sem teto

"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma" (Fernando Pessoa)

Casmurro sem teto

"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma" (Fernando Pessoa)
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Terra Blog

Arquivo de: Setembro 2006

10.09.06

Brasil para brasileiros?

Quem me conhece sabe que adoro falar mal dessa terra Brasil. Nossa política é corrupta, nossa segurança publica é pífia, nossa educação publica é ineficiente, o povo é alienado e mal-informado, nosso presidente é analfabeto.Mas, no fundo - no bem fundo - há coisas admiráveis nesse país tão idolatrado. Seria possível reconstruir esse país apenas com suas coisas boas? Não, não é possível. Mas brasileiro que é brasileiro bebe da fonte da fantasia desde que Brasil é Brasil. Afinal, desencantos atrás de desencantos necessitam de um cálice de esperança. Voltando ao ônus de reconstruir essa patuscada, invento. Sonhando.
Primeiro, escritor brasileiro é gente como Guimarães Rosa e Machado de Assis. Salvo que, Guimarães Rosa ainda viveria para receber seu Nobel de Literatura o que nos faria, a princípio, um país com um Nobel. Brasileiro lê, e Paulo Coelho é mais um autor esquecido em estantes de livrarias. Brasileiro lê jornal e revistas. A Veja é maravilhosa.
Música brasileira é bossa-nova, tropicália, Cazuza, Legião, samba de qualidade e rock é Rita Lee. Chico Buarque é popular, se é que isso é possível. A boa musica está na boca do povo, cantada em voz baixa no metrô, ou ainda, escutadas em MP3 egoístas. As rádios são incorruptíveis.
Televisão, instrumento de diversão e cultura. Novelas são gêneros ultrapassados e que ainda fazem sucesso apenas em Cuba, nos países vizinhos de lingua espanhola, e para os mexicanos de Miami. Hebe volta a ser ao vivo e suas perguntas jocosas sobre o sofá bege ainda são sensação. Gugu decide abrir uma Neverland e ser feliz com a esposa. A família Marinho vai a falência - lembrando-se de que se trata do impossível - e a Fundação Padre Anchieta compra o Projeto Jacarepagúa, vulgo Projac e de lá produz seus programas, cada vez com mais qualidade e público.
Cinema brasileiro bom ainda é Glauber Rocha. Fernando Morais faz sucesso aqui - mais do que no exterior - e Walter Salles ainda ostenta uma estatueta por 'Central do Brasil', com incontida felicidade. Daniel Filho aposenta-se por tempo de serviço e Fernanda Montenegro ascende como ministra da Cultura. Hollywood é aqui, todo brasileiro conhece 'O Bandido da Luz Vermelha' e discute a estética do lixo na fila do banco.
Teatro passa a ser algo corriqueiro, vamos ao teatro? vamos. Bibi Ferreira percebe que não é Edit Piaf, uma nova safra de bons atores varre a geração 'Malhação' e, do céu, Gianfrancesco Guarnieri, Sérgio Cardoso e Cacilda Becker olham entre aprovação e jubilo.
E, se houver ainda outra possibilidade de interferência no passado, Tancredo de Almeida Neves - talvez, mais mártir que o seu conterrâneo que morreu coincidentemente no mesmo dia e hora - teria sido não só sido empossado como exerceria o seu mandato de 5 cinco anos. Tendo perdido para Tancredo, Maluf decide voltar às origens e vai viver como magnata em Beirute, e está hoje prometendo acabar com a guerra do Líbano colocando a 'Rota na rua'!
Depois de Tancredo, vem outro tão preparado como o mineiro. Os arquivos da ditadura são abertos e os culpados punidos. Delfim Netto - ministro da ditadura, foi deputado por Maluf e agora é candidato a deputado pelo PMDB, vai entender - desistiu faz muito tempo. Igualdade social ainda não é plena, mas é uma realidade palpável. Além de tudo, o brasileiro é feliz.
Uma pesquisa do IBGE - no plano da realidade amarga - publicou ontem uma pesquisa em que mais de 70% dos brasileiros se dizem felizes, mas não acham os outros brasileiros felizes. Não adianta mudar um país inteiro para eles. Nós? É incoerente, contudo parece-me mais fácil mudar o Brasil do que o brasileiro. O jeito é sonhar.

07.09.06

Zuzu Angel e o amor nos anos de chumbo

Com certo alívio entrei na sala de cinema vazia. Escolhi um bom lugar, havia no máximo dez pessoas. Constatei logo que brasileiro não gosta mesmo de filme brasileiro, paradoxal ou não. E que brasileiro também não gosta de história do Brasil, paradoxal ou não. Unidas duas paixões minhas - cinema e história - não hesitei em escolher 'Zuzu Angel'. Deixei as reflexões de lado, no meio do trailler, para abastecer-me de pipoca 'com manteiga no meio e em cima, por favor'.
Sempre gostei muito da história do Brasil, especialmente a história dita recente. Tenho grande interesse pela época do regime militar, leio muita coisa sobre esse perído com muito interesse e fome. Somos frutos dessa época conturbada. Somos frutos de uma geração falida de guerrilheiros urbanos. Somos herdeiros do espólio do 'aceditar no Brasil', o que hoje não passa de um retrato na parede.
Mas, o filme. Foi uma viagem pela história de Zuleika Angel, mineira de Curvelo, que conta sua epopéia por justiça. Mais do que justiça, Zuzu Angel queria apenas velar o corpo do seu filho, Stuart Edgar Angel Jones, torturado até a morte numa base da Aeronáutica, nos anos 70, os 'anos de chumbo'. Implícita no filme, a morte de Stuart é a mais revoltante o possível: amarrado a um jipe, com a boca presa ao cano do escapamento, ele morre asfixiado enquanto o carro roda pelo pátio interno da base.
A luta de Zuzu é emocionante. Busca seus contatos nos Estados Unidos, onde suas roupas eram coqueluche, e denuncia a onda de tortura que se espalhava pelo Brasil. Encheu suas confecções de motivos políticos. Fez pouco barulho na época, principalmente pela censura generalizada na imprensa. Mas incomodava e muito os militares, donos do poder. Acabou morta na saída de um túnel carioca que hoje leva o seu nome. Evidentemente, fora uma emboscada. Pouco antes de morrer, Zuzu escrevera uma carta em que dizia que o que acontecesse com ela teria sido por intervenção dos militares. O filme narra toda essa historia, obviamente com um grande envolvimento emocional. Mesmo assim, é valido.
Apesar das muitas cenas marcantes, para mim, o mais impressionante foi o final. O momento em que sobem os créditos. Exatamente enquanto todos levantavam-se, abandonando a sala de cinema, eu permaneci sentado ainda por algum tempo. O encerramento era acompanhado pela música 'Angélica', composta por Chico Buarque especialmente para Zuzu. 'Quem é essa mulher/que canta como dobra um sino/queria cantar por meu menino/que ele não pode mais cantar', assim são os versos dessa linda música que canta a vida não só de uma mãe, mas de uma brasileira.
Identificando-se ou não com a luta de Zuzu por justiça, é preciso reconhcer que faltam pessoas como ela. Dispostas a tudo, até mesmo morrer, a ter que abandonar seus ideais e convicções. Dispostas a tudo para germinar um Brasil melhor, justo, em que todas as mães podem amar seus filhos sem ressalvas.

06.09.06

Maquina de amansar doido

Quando eu tinha lá os meus 4 anos eu tinha uma espécie de raiva da vinheta final do “Jornal Nacional”. Naquela época tínhamos uma televisão na sala, alvo visado por todos em casa. Por volta das 8 da noite, como num rito sagrado, sentava-me na sala, no tapete marrom de figuras orientais bregas. Ficava a menos de um metros da televisão, o que gerava sermões de minha vó (“não pode ficar tão perto da televisão, vai ficar cego!”). Mas nem ligava. Ficava contorcido, como se quisesse me encaixar no tamanho da tela. Dali, assistia ao Castelo Ra-tim-bum, um deleite saudavel e divetidissimo.
Minha mae sabia a hora certa. O Castelo Ra-tim-bum acabara. Ela caminhava da cozinha até a sala, a passos curtos, premeditados, como de um carrasco antes de cumprir a sentença final de um pobre condenado à cadeira eletrica. Via sua figura alta e tesa encostar-se à porta da sala, analisar com indiferença o local, os bibelôs, e falar:
- Já vai começar a novela.
Forçado, tinha que mudar de canal. Migrávamos para a rede Globo ainda a tempo de ouvir a famigerada vinheta final do JN anunciando a novela. Minha mae refestelava-se no sofá e eu olhava.
- Eu queria assitir a Cultura – redarguia com bravura, mas de nada adiantava.
Até hoje, sinto um aperto quando ouço a centenaria musica do jornal. Lembra-me a obrigaçao de mudar me da fantasia de um castelo com cobras que falam, para novelas – que eu não achava graça nenhuma. Mas mãe é mãe, e novela é novela – mais tarde eu aprenderia isso. Com o tempo fui me acostumando com aquele bicho estranho chamado tevê. Onde já se viu uma caixa, de plastico negro e duro, transmitir imagens e sons com perfeição? Duvidas metafísicas de uma criança. Depois, a magia da televisao foi sendo substituida por outras sensações. E com o passar do tempo fui olhando com outros olhos aquela máquina de amansar doido.
Minha relação com a tevê é de toda emocional. Programas, vinhetas, personagens vão pontuando momentos. Como ouvir o plantão da Globo e não ficar imóvel? Como negar ter assistido, pelo menos uma vez na vida, Faustão ou Gugu? Madrugadas insones com Jô Soares ou com o ‘Intercine’ – que incrivelmente nunca liguei para escolher algum filme. Coberturas jornalísticas, Disney Cruj. Minha infância toda marcada pelo símbolo esdrúxulo do SBT, enlatados e dramalhões.
Sim, televisão é um veículo pouco cognitivo, eu sei. E tento evitá-la ao máximo nos últimos tempos. Mas, é inconsicente, a televisão ainda faz parte do meu imaginário. Essa caixa cheia de magia estranha.
A televisao mudou muita coisa lá em casa. Principalmente depois que compramos outro aparelho e o colocamos na cozinha. Assim passamos a almoçar ora em meio às palhaçadas de Chaves ora em meio às noticias do SPTV. E passamos a jantar e depois ouvir o “boa noite” de Willian Bonner, que eu destesto. E a maldita vinheta do JN ainda me remetia àqueles velhos tempos de renúncia. E me dava uma indigestao dos diabos

03.09.06

Agora, blog

 Eu sei que quase ninguem visitava o Casmurro sem teto, mas mesmo assim eu continuo escrevendo - com a secreta esperança de estar ,talvez, 'escrevendo certo'.
Agora, estou na onda do blog. Acho melhor, mais organizado.
Tentarei ser mais assíduo por aqui, mas eu passei, digamos, por um 'hiato criativo' (e quem sou eu para tal?) mas acho que me recuperei. Por completo? Não sei.
Olho pela janela, o domingo vai indo embora. Mais um fim de semana que poderia ser e não foi. Quase todos os meus esperançosos fins de semana. Podem ser. E vem a semana que pode ser. Uma segunda-feira modorrenta, fria, longa. É ela que me chama para mais uma semana. E eu sempre espero algo. Isso me mantém vivo!

(Momento 'dono de quitanda': avisem para os seus amigos, mudei de endereço! Avisem, hein!)

Abraços