10.09.06
Brasil para brasileiros?
Quem me conhece sabe que adoro falar mal dessa terra Brasil. Nossa política é corrupta, nossa segurança publica é pífia, nossa educação publica é ineficiente, o povo é alienado e mal-informado, nosso presidente é analfabeto.Mas, no fundo - no bem fundo - há coisas admiráveis nesse país tão idolatrado. Seria possível reconstruir esse país apenas com suas coisas boas? Não, não é possível. Mas brasileiro que é brasileiro bebe da fonte da fantasia desde que Brasil é Brasil. Afinal, desencantos atrás de desencantos necessitam de um cálice de esperança. Voltando ao ônus de reconstruir essa patuscada, invento. Sonhando.
Primeiro, escritor brasileiro é gente como Guimarães Rosa e Machado de Assis. Salvo que, Guimarães Rosa ainda viveria para receber seu Nobel de Literatura o que nos faria, a princípio, um país com um Nobel. Brasileiro lê, e Paulo Coelho é mais um autor esquecido em estantes de livrarias. Brasileiro lê jornal e revistas. A Veja é maravilhosa.
Música brasileira é bossa-nova, tropicália, Cazuza, Legião, samba de qualidade e rock é Rita Lee. Chico Buarque é popular, se é que isso é possível. A boa musica está na boca do povo, cantada em voz baixa no metrô, ou ainda, escutadas em MP3 egoístas. As rádios são incorruptíveis.
Televisão, instrumento de diversão e cultura. Novelas são gêneros ultrapassados e que ainda fazem sucesso apenas em Cuba, nos países vizinhos de lingua espanhola, e para os mexicanos de Miami. Hebe volta a ser ao vivo e suas perguntas jocosas sobre o sofá bege ainda são sensação. Gugu decide abrir uma Neverland e ser feliz com a esposa. A família Marinho vai a falência - lembrando-se de que se trata do impossível - e a Fundação Padre Anchieta compra o Projeto Jacarepagúa, vulgo Projac e de lá produz seus programas, cada vez com mais qualidade e público.
Cinema brasileiro bom ainda é Glauber Rocha. Fernando Morais faz sucesso aqui - mais do que no exterior - e Walter Salles ainda ostenta uma estatueta por 'Central do Brasil', com incontida felicidade. Daniel Filho aposenta-se por tempo de serviço e Fernanda Montenegro ascende como ministra da Cultura. Hollywood é aqui, todo brasileiro conhece 'O Bandido da Luz Vermelha' e discute a estética do lixo na fila do banco.
Teatro passa a ser algo corriqueiro, vamos ao teatro? vamos. Bibi Ferreira percebe que não é Edit Piaf, uma nova safra de bons atores varre a geração 'Malhação' e, do céu, Gianfrancesco Guarnieri, Sérgio Cardoso e Cacilda Becker olham entre aprovação e jubilo.
E, se houver ainda outra possibilidade de interferência no passado, Tancredo de Almeida Neves - talvez, mais mártir que o seu conterrâneo que morreu coincidentemente no mesmo dia e hora - teria sido não só sido empossado como exerceria o seu mandato de 5 cinco anos. Tendo perdido para Tancredo, Maluf decide voltar às origens e vai viver como magnata em Beirute, e está hoje prometendo acabar com a guerra do Líbano colocando a 'Rota na rua'!
Depois de Tancredo, vem outro tão preparado como o mineiro. Os arquivos da ditadura são abertos e os culpados punidos. Delfim Netto - ministro da ditadura, foi deputado por Maluf e agora é candidato a deputado pelo PMDB, vai entender - desistiu faz muito tempo. Igualdade social ainda não é plena, mas é uma realidade palpável. Além de tudo, o brasileiro é feliz.
Uma pesquisa do IBGE - no plano da realidade amarga - publicou ontem uma pesquisa em que mais de 70% dos brasileiros se dizem felizes, mas não acham os outros brasileiros felizes. Não adianta mudar um país inteiro para eles. Nós? É incoerente, contudo parece-me mais fácil mudar o Brasil do que o brasileiro. O jeito é sonhar.