Casmurro sem teto

"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma" (Fernando Pessoa)

Casmurro sem teto

"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma" (Fernando Pessoa)
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Terra Blog

Arquivo de: Novembro 2006

22.11.06

Esquadros

O cérebro tem dessas loucuras de consciente e subconsciente. O subconsciente, por não ser consciente, capta dezenas de estímulos por segundo. Sons, vozes, formas, cores. Esta é a explicação mais provável do déja vu. Ou seja, seu subconsciente, de alguma forma, já captou aquela mesma sensação, em algum lugar. Estranho, mas Freud explica.
Déja vu virou coisa banal, assunto de 'Globo Repóter'. Comigo, ele acontece sempre. Mas não fora tão forte como em um dia desses. Viajava confortavelmente de carro rumo ao interior. Passeio costumaz, bonito, familiar. Era uma manhã de sábado, e fazia frio como em todas as manhãs de sábado. Isso quer dizer, as manhãs de sábado em que eu estou já de pé - que são extremamente raras. Nao sou metodista, mas o sábado é sagrado para mim. Na mitologia grega é o dia de descansar após a colheita; no catolicismo é o dia em Deus descança. Eu também mereço esse sacro sono até o meio-dia. 
Mas não naquele sábado.  Fui jogado no banco do carro, ainda sonolento. Vi-me criança, fixado no vidro, olhando as coisas, perguntando abismado. "Todas estas coisas têm um nome e eu preciso saber todos eles". E as coisas andavam ágeis, o canteiro da avenida, as pessoas, os bichos. Via tudo por segundos, instantes, e desaparecia. Um filme.  
Devia estar dormindo, acordei, fiquei propenso, caindo de sono. No meio da estrada olhei de relance para a ambulância que passava pelo outro lado. Sirene alta, para onde? Alguma desgraça, acidente. Mas já não pensava nisso: ela saia em disparada, e mais coisas me confundiam.
A mulher atravessando a rua com a criança no colo. O olhar triste, as roupas rasgadas. De onde são, onde moram, quem são? Sumiram, não posso ajudá-las. Estou fora e dentro de tudo, apenas testemunho. Vejo os mendigos deitados no canteiro, não consigo ver seus rostos.
Tudo imenso. Mundo, mundo, vasto mundo! Não me chamo Raimundo, e só tenho problemas. Na verdade, não os tenho. Sinto a dor, a tristeza, as cores, mas por instantes. Relance.  Eu quero alcançar algo, mas está a alguns centímetros apenas. Agonia.
E aí vem o famigerado déja vu.  Uma muher, baixa, de cabelos escuros e longos, olhos profundos, braços largos.  Eu já havia visto alguem como ela. Ou ela mesmo, não sei. Na vastidão destes caminhos, já a vi. Ou em sonho? Quando decidi analisá-la melhor, já estava para trás. Metros para trás. Via a  paisagem como num quadro;  a paisagem verde e morta. Tudo sem nenhum resquício de vida.  O verde, o cinza, o preto. Não me dizem absolutamente nada.

20.11.06

Trema

O livro caiu, pesado. Capa dura, vermelha, folhas amareladas. Na capa, em letras garrafais: "Livro de Moral e Cívica". Na primeira página, com a letra débil de uma criança, o nome do meu pai. O livro era dele.
Moral e Cívica fora uma invenção da ditadura militar para ensinar patriotismo aos alunos da rede pública. Ensinava coisas ditas obsoletas hoje como "levantar-se quando o professor adentra a sala de aula" ou "colocar a mão direita sobre o peito ao cantar o majestoso hino nacional".
Na segunda página estava uma rubrica do presidente Emílio Garrastazu Médici, que governou o país de 1969 a 1974. Como, na outra página, dizia que o livro estava de acordo com a Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa de 1971, deduzi que o livro fosse de 1972, 1973.
Abaixo, vinha uma frase do Médici: "Povo desenvolvido é povo que lê". Fosse hoje, poderiam colocar a frase lapidar do presidente Lula: "Ler cansa mais do que andar de esteira". E como vimos nas fotos do presidente Lula com a primeira-dama na praia de Inema, em Salvador, ele necessita urgentemente de uma esteira.
O primeiro capítulo era extenso e exclusivamente dedicado ao "auriverde pendão de minha terra". Dava nome a todas as estrelas da bandeira e explicava como elas deveriam estar posicionadas. Trazia integralmente as letras do Hino Nacional, o da Independência, o da Proclamação da República e o da Bandeira. (Hoje é o Dia da Bandeira, registre-se)
O segundo capítulo trazia biografias de grandes nomes da história brasileira. Claro que só havia as biografias que interessavam ao regime: nomes importantes da história, tais quais Luís Carlos Prestes ou Getúlio Vargas não foram nem citados. Tiradentes, Dom Pedro II, Castro Alves e Cesar Lattes eram alguns dos muitos heróis brasileiros exaltados. Não faltaram elogios aos presidentes militares que governaram o Brasil até a época.
Fui folheando o livro e parando em algumas biografias interesantes. Parei na página dedicada ao grande Rui Barbora ao me deparar com um escandaloso trema. O trema sob o 'u' da palavra 'cinqüenta". Parecia borrado, estranho. Mas era um trema, e isso é o que importa. Eu não sei o que o deu nas pessoas que decidiram assassinar o trema. A Folha de São Paulo já aboliu o trema de uma vez. Algumas outras fontes tipadas de outros jornais e revistas também. Não agüento mais. Na página do Houaiss na Internet o trema não é reconhecido - palavras como argïr não são encontradas no dicionário.
O trema é lindo. Acho bárbaras aquelas palavras em alemão, cheias de tremas. Deixa qualquer texto mais atraente. Adorava, nos meus trabalhos de história, sempre citar os planos qüinqüenais. Mas, com esse enxágüe constante de letras e sinais a que estão submetendo freqüentemente a 'última flor do Lácio', em pouco tempo acabarão abolindo outro ícone na seqüência: o pingo do i.
O pingo no i é inútil. Em pouco tempo também será abolido. E não haverá mais graça certos vocábulos como 'beijinhos', cheio de pingos. Ou entao, 'xiitas'. Porém, à cursiva, 'xiitas' pareceria estranho e até podeia ser lito 'xuta', vocábulo que não existe.
Ainda achei outras palavras tremadas - ou tremidas - no livro de Moral e Cívica. Todas elas lindamente desconhecidas como ungüento, palavra lá do tempo do Médici. No tempo dêle, como se escreve no livro. Dêle, com acento. Pelo que entendi, fora uma das medidas trazidas pela reforma ortográfica já citada.
Se hoje 'êle' é obsoleto, temo pensar em como será a acentuação dos livroas de 2030 para frente. Imagino alguém abrindo um livro desta época e achando tudo indecifrável. Lingüistas bem abertos já dizem que a linguagem (bem que merecia um trema) da internet é o futuro. E o futuro é abrir na biografia do Rui Barbosa e ler: "Uh miguxu foi ministru da Fasenda nu finau du seculou disenovi. Calsol uma grand crize economica cunhessida como enssilhamento".