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O cérebro tem dessas loucuras de consciente e subconsciente. O subconsciente, por não ser consciente, capta dezenas de estímulos por segundo. Sons, vozes, formas, cores. Esta é a explicação mais provável do déja vu. Ou seja, seu subconsciente, de alguma forma, já captou aquela mesma sensação, em algum lugar. Estranho, mas Freud explica.
Déja vu virou coisa banal, assunto de 'Globo Repóter'. Comigo, ele acontece sempre. Mas não fora tão forte como em um dia desses. Viajava confortavelmente de carro rumo ao interior. Passeio costumaz, bonito, familiar. Era uma manhã de sábado, e fazia frio como em todas as manhãs de sábado. Isso quer dizer, as manhãs de sábado em que eu estou já de pé - que são extremamente raras. Nao sou metodista, mas o sábado é sagrado para mim. Na mitologia grega é o dia de descansar após a colheita; no catolicismo é o dia em Deus descança. Eu também mereço esse sacro sono até o meio-dia.
Mas não naquele sábado. Fui jogado no banco do carro, ainda sonolento. Vi-me criança, fixado no vidro, olhando as coisas, perguntando abismado. "Todas estas coisas têm um nome e eu preciso saber todos eles". E as coisas andavam ágeis, o canteiro da avenida, as pessoas, os bichos. Via tudo por segundos, instantes, e desaparecia. Um filme.
Devia estar dormindo, acordei, fiquei propenso, caindo de sono. No meio da estrada olhei de relance para a ambulância que passava pelo outro lado. Sirene alta, para onde? Alguma desgraça, acidente. Mas já não pensava nisso: ela saia em disparada, e mais coisas me confundiam.
A mulher atravessando a rua com a criança no colo. O olhar triste, as roupas rasgadas. De onde são, onde moram, quem são? Sumiram, não posso ajudá-las. Estou fora e dentro de tudo, apenas testemunho. Vejo os mendigos deitados no canteiro, não consigo ver seus rostos.
Tudo imenso. Mundo, mundo, vasto mundo! Não me chamo Raimundo, e só tenho problemas. Na verdade, não os tenho. Sinto a dor, a tristeza, as cores, mas por instantes. Relance. Eu quero alcançar algo, mas está a alguns centímetros apenas. Agonia.
E aí vem o famigerado déja vu. Uma muher, baixa, de cabelos escuros e longos, olhos profundos, braços largos. Eu já havia visto alguem como ela. Ou ela mesmo, não sei. Na vastidão destes caminhos, já a vi. Ou em sonho? Quando decidi analisá-la melhor, já estava para trás. Metros para trás. Via a paisagem como num quadro; a paisagem verde e morta. Tudo sem nenhum resquício de vida. O verde, o cinza, o preto. Não me dizem absolutamente nada.

criado por Casmurro sem teto
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