Casmurro sem teto

"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma" (Fernando Pessoa)

Casmurro sem teto

"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma" (Fernando Pessoa)
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Terra Blog

Arquivo de: Abril 2007

23.04.07

Pescador de Pérolas

- Samambaia! Sa-mam-ba-ia! – e o gravador repetia o som abafado, a voz agastada. Era um gravador velho, pesado, simplório. Mas ainda prestava e era de grande valia.
- Antagônico. An-ta-gô-ni-co. Antagônico.
- Você é louco, só pode ser! – disse a mãe, sacolejando os largos e ossudos ombros, a pele rija e alva, os olhos azuis perfurantes, olhos de mar, mãe eu já lhe disse que a senhora tem olhos de mar...? – Você só pode ser louco. Fica repetindo essas palavras nesse gravador velho.
- Palavras são bonitas, mãe – argüiu – E, se são bonitas, devem ser cultivadas. Beleza, entende?, dizia Tunico abrindo os braços feito um avião, voando rasante pelo perímetro da mãe, beleza mãezinha, brummm.
Chamava-se Tunico. Tinha vinte anos, uma cabeleira ruiva que lhe tampava as faces e expressivos olhos. Era vidrado em olhos. De ressaca? Vá, de ressaca. Era estudante. Chegara a trabalhar em funções meramente burocráticas. Achava tudo tão mecânico e forçado que logo se exauriu e pediu as contas. Quando chegou em casa, um livro embaixo do braço, mãe, agora estou livre.
A mãe descascava algo na cozinha, talvez batatas, adora colocar batatas em tudo. “Livre, como?”, perguntou a mãe já adivinhando algo iminentemente ruim. Jogou o livro sobre a mesa, eu me demiti mãe, estou livre. A faca fez um corte rente na ponta branca do dedo da mãe que intumesceu e ficou vermelho. Ela envermelhou-se toda, encolerizada.
- Ibirapuera. I-bi-ra-pu-e-ra. Ibirapuera – dessa última vez mais rápido, ele havia lido certa vez o que significava Ibirapuera, tem algo a ver com pedra? Vinha do tupi, ele gostava de tupi. Gostava também de latim, sabia alguma meia-dúzia de declinações.
De onde veio tal admiração por palavras, ninguém sabe. Ele dizia para os amigos que já escrevia antes mesmo de saber escrever. Ninguém entendia ao certo, ele explicava que inventava histórias ainda cedo. “Eu ganhei um caderno”, dizia, “quando completei sete anos. Ali escrevia minhas coisas”.
Foi por essa época que o pai de Tunico sumiu. Ninguém sabe se morreu ou se ainda vive. Houve tempos em que Tunico sonhava com ele: o pai vinha, em sonho, vestindo uma túnica azulada, os pés descalços, o cabelo desgrenhado, as mãos estendidas e dizia: vem? Depois, entrava por um buraco imenso, parecia que havia água dentro dele. E o pai mergulhava, vem? Alcançava as profundezas, sorria, gesticulava, e se repartia em vários na sensação da água fria. Vem?
- Indissolúvel. In-di-sso-lú-vel. Indissoluvelmente.
A mãe na cozinha já se irritara novamente.
- Você não cansa?! Parece que faz com o intuito de me irritar – uma pausa dramática. O olho azul da mãe desfez-se líquido, e parecia escorrer pela face, azul translúcido, pastoso.
- Mãe, seu olho. Eu faria um soneto, se permitisse. Azul, azul, azul...
- Eu não quero soneto, entende? Quero que você pare com essa mania de...de...
- Colecionar?
- Isso, colecionar. Colecionar palavras. Onde já se viu? E ainda com esse gravador e aqueles cadernos? Meu Deus!
Tunico levantou a cabeça e encarou a mãe. O avental puído trazia morangos bordados, belos morangos. Havia, mais ao fundo, uma cesta de vime com uvas, pareciam saborosas. Sentiria-se como aqueles imperadores romanos dos filmes, com belas mulheres lhes servindo uvas doces e cheirosas. Laranjas também haviam sido bordadas no avental. Laranjas apetitosas, a casca firme, estriada, o sumo escorrendo pelo canto da boca, a acidez ferindo a língua.
- Mãe, nós temos laranjas? Quero suco. De laranjas.
- Não, nós não temos laranjas. E é hora de uma conversa séria. Sente-se, disse apontando para a cadeira velha, de pernas tortas.
- Sabia que a palavra cadeira vem do grego? – indagou, sem desviar o olhar do chão, o carpete gasto, o cheiro do carpete molhado, chovera tanto ontem à noite?
- Não sei. Eu estava dormindo. Se você fala do carpete, esqueça-se. Está assim desde o tempo do...
- Do meu pai?
- Sim, do seu pai. Sempre foi assim. Acho que quando compramos a casa já estava assim, buracos imensos.
- Papai mergulhou num buraco imenso, feito uma piscina, bateu-se contra a água fazendo um barulho doído...
A mãe olhou para o filho com o olhar triste. Perdera o marido e agora o filho. Cuidaria dele sim, levaria a alguma clinica, um retiro, um hospício.
- Mãe, há um poema em que o médico diz que o garoto é um caso de poesia. Caso de poesia, compreende?
A mãe calou-se. Fez-se um silêncio profundo. Na penumbra, Tunico via apenas a silhueta da mãe que, da janela, olhava a rua esvaziar-se, já é quase noite. Um fio de luz a percorria e a deixava altiva, mais bela, e aqueles olhos! Papai mergulhou naqueles olhos, os braços fortes debatendo-se e pedindo socorro.
- E a nossa conversa?, indagou Tunico
A mãe deu de ombros. Voltou-se para a cozinha, uma cozinha kubrickiana, azulejinhos azuis e amarelos, uma mesa imensa. Um grande espelho. Aquela mesa foi feita para comportar grandes famílias, pensou.
- Estalactite. Es-ta-lac-ti-te – disse mais próximo do gravador. Lembrou-se dum poema, de quem era mesmo? As estalactites duma gruta.
Se lhe permitissem, ele ficaria horas naquela posição. Sentado no chão, ouvindo suas palavras. Mastigando cada sílaba vagarosamente. Experimentando o que cada uma poderia proporcionar, fosse bom ou ruim. Saboreando o caminho das palavras, que depois de saírem da sua boca, diluíam-se no ar e impregnavam-se nas coisas. Nas paredes velhas, infiltradas. Nos móveis velhos, empoeirados.
Passado mais algum tempo, a mãe exasperou-se ainda mais e fez o que prometera. Era um sábado de manhã quando levaram Tunico. A mãe disse que dali a alguns dias levaria uma mala com roupas.
- Não se esqueça do gravador, de livros, papéis e canetas, muitas canetas, tenho loucura por canetas, mãe! – disse Tunico entrando num carro branco discreto.
Passou a viver em um cubículo com vista para o jardim interno, um jardim pequeno e feio. No quarto, havia uma cômoda velha, uma mesa e uma cadeira, uma cama e um imenso crucifixo de madeira na parede. Jesus Nazareno, rei dos Judeus é o que está escrito, já gasto, meio apagado pelo tempo. Tunico ficou repetindo. Eram as únicas palavras que via. As outras haviam se escondido, haviam fugido, onde estão as palavras? Naquele quarto não havia um livro ou uma revista. Onde está o meu gravador?
- Atroz, atroz, atroz. A-troz. – repetiu ouvindo a prórpia voz.
A palavra solta, livre, ecoou no cubículo e saiu pela janela. Palavra alada, fez mil acrobacias no ar, caiu de pé, firme. Alçou vôo novamente, inteiriça. Tomou um impulso e projetou-se sem medo no imenso azul do céu. Trespassou as nuvens, os olhos fechados, os braços abertos. Por fim, misturou-se ao aparentemente imiscível azul. Azul, azul, o azul inquieto dos olhos da mãe de Tunico.


Marcos Vinícius Ferrari

21.04.07

A lição de Lygia

Salve o dia 19 de abril
Em que nascemos os dois
Eu, um século antes
Lygia, um século depois

(Manuel Bandeira, citando a coincidência dos aniversários dele e de Lygia Fagundes Telles)


Passei os dedos sobre as lombadas dos livros. Creio que eu era um pouco parecido com Clarice Lispector, que misturava contos de fada com Herman Hesse. Clarice dizia que, quando jovenzinha, escolhia os livros pelo título. Num determinado canto da biblioteca, ficavam os livros da Lygia. Coincidência ou não, em toda biblioteca ou sebo, os livros dela sempre ficam ao lado dos de Clarice. Dedilhei-os, senti seus cheiros. Escolhi então Verão No Aquário, belo título, pensei. Achei sinestésico, o verão na água gelada dum aquário. Levei.
Na contracapa, uma foto de Lygia e uma mini-biografia. Lygia, na foto que parecia ser antiga, usava uma blusa de linho e um cachecol em volta do pescoço. Abri com sofreguidão e avidez. As primeiras páginas já eram emocionantes: Raíza, a perturbada protagonista, via seu pai chegando. Mas no lugar do rosto, uma rosa. O cheiro de hortelã. Lygia, que já havia levado Capitu para o cinema, soube criar um clima machadiano de traiçao e dúvida. Um clima de Electra de Agamenon. De tragédia grega. O ano era 1964. O pólen do medo se disseminando pelo país.
Apaixonei-me por aquela escrita precisa, gelada, rascante. Fui buscar mais Lygia em Ciranda de Pedra. Ali, ela desfiava a história de Virgínia, rejeitada pelo pai e pelas irmãs. O ano era 1954, o auge dos anos dourados. Tratava-se do primeiro romance dela e, portanto, anterior a Verão. E Lygia falava de lesbianismo, exclusão social, divórcio, loucura, hipocrisia e feminismo. Com a propriedade e a contundência necessária.
E quando fui em busca dos contos, descobri um maná de beleza e sensibilidade. Uma arca perdida, empoeirada que eu desenterrava e abria. Ouro, diamantes! Preciosidades. Natal na Barca me arrepiou e até hoje me arrepia, depois de mais de quarenta leituras. O rio verde e quente. O verde sempre presente na obra de Lygia, seja na cor dos vestidos, seja na cor da peruca, seja na cor dos olhos. A peruca verde da dona da pensão onde estava Frau Herta. A pensão tinha os olhos ovalados. E As formigas? Devia ser a mesma pensão, as janelas observando tudo e todos. O esqueleto do anão sendo montado por formigas noturnas. O anão no guarda-roupa de Frau Herta. A injustiça. A impotência.
Venha ver o pôr-do-sol, assim Ricardo chamava Raquel. O cemitério. As crianças brincando de roda. O grito de não. Pouco a pouco fui descobrindo outras pérolas Lygia. As pérolas. A caçada. Conheci a estrutura da bolha de sabão.
Quando achei que estava preparado, digeri As meninas. Obra tensa, inquietante, perfeita. Era 1973 e nada ocorria. O Brasil estava imobilizado por uma ditadura sanguinolenta, Médici no poder. A guerrilha urbana fora suprimida e tornou-se apenas uma pequena apoquentação a mais para os militares. Caetano e Gil voltavam do exílio, porem mudos. Os cabelos cortados, a revolta, os lábios cerrados. Lygia assumiria um tempo depois que era "uma testemunha das coisas ruins de seu tempo". E seu testemunho veio num dos livros mais provocativos dos anos 70. As meninas contava a história de três garotas diferentes mas iguais entre si. Retratos indefectíveis de uma época guardada com saudosismo mas distanciamento.
As três meninas eram Lorena - a burguesa -, Lia - a subversiva guevariana - e Ana Clara - a drogada. Três perfis distintos e apaixonantes. Lorena, Lena, Loreninha, contudo, continua sendo a mais sedutora. Pulando na cama ouvindo Jimi Hendrix, entende? M.N, a paixão. No meio do livro, havia um relato da tortura comum à época. Lygia recebeu um panfleto com um relato cheio de minúcia e pormenores. Colocou no livro mas com receio. A censura era ativa.
Um tempo depois, As meninas caiu nas mãos dum obtuso censor que achou o livro chato demais. Parou na metade, não chegou a ler a denúncia. A literatura saiu vitoriosa. Lygia enfrentou uma ditadura com palavras. O militar que perguntou para Caetano Veloso se ele queria desafiar uma metralhadora com uma guitarra. A ignorância. Lygia enfrentou a covardia e a boçalidade com a palavra. A palavra-flecha, certeira.
Ainda pude ler As horas nuas, livro tristíssimo. Talvez o mais triste dos quatro romances. A louca Rosa Ambrósio e seu gato Rahul. Tantas vidas, tantas faces do mesmo brilhante. Os espelhos. A ironia e a sensibilidade do felino saltando de um lado para o outro do apartamento, a pata emborrachada.
Em 2006 fui à Bienal do Livro em São Paulo, justamente no dia em que Lygia daria uma palestra. Meus olhos se acenderam com a idéia de vê-la, mesmo que distante, mas vê-la. Sentí-la no mesmo recinto, ela no auditório, eu na platéia escura. Mas uma série de fatores impediu que eu a visse naqule dia. Fui embora consternado, pesaroro. Senti-me como a Pomba Enamorada do conto homônimo. A pomba fiel que prometeu para sempre amar o homem que encontrou numa festa. E o amou, como o amou! Mas o desencontro! Os encontros e desencontros. A pomba o adorou até o final. É para ler, rir e sofrer ao mesmo tempo. Rir da condição humana. Sofrer com o destino implacável.
Antes do Baile Verde. Novamente, o verde. O pai de Lygia sempre a levava aos cassinos e apostava no verde. Verde nem sempre é esperança. É angústia. E Lygia, ainda no seu poderoso testemunho, expôs o tragicômico Seminário dos Ratos. As bases dum Brasil corroído pelos ratos e pronto a desabar. O chão trêmulo. A invasão dos ratos, quando será?
Conhecer Lygia foi uma viagem para dentro de mim mesmo. Ela diz que escreve para se desembrulhar e depois se embrulhar de novo. E eu leio justamente por isso. Para me descascar e me esconder de novo. Para me esconder de medo. Lygia conseguiu pintar com suas matizes agressivas a minha vida. Ela conseguiu me tirar do mar da mediocridade onde estava imerso. Ela mudou meu modo de pensar, de escrever, de encarar a literatura, o ser humano. Lygia me deixou com o coração na mão. E com ela aprendi a tomar cuidado com as tais palavras-facas...


Marcos Vinícius Ferrari

 
(Lygia Fagundes Telles completou 84 anos no último dia 19 de abril)

O corpo humano

Exposição "Corpo Humano: Real e Fascinante" leva os paulistanos à OCA do Parque do Ibirapuera

 

Quando cheguei ao laboratório de medicina, pude ver dois estudantes me observando. Um deles passava a mão sobre o cavanhaque ralo, as mãos pequenas.
- Esse daí está mais acabado do que os outros!
Eu estava imóvel. Haviam me dado, no último laboratóro onde estive, umas doses cavalares na veia. Umas injeções enormes e eu não podia gritar de dor, socorro! A agulha respingava aquele líquido quase-verde que entrava em mim, o que é isso?. Quis perguntar, mas então me lembrei que eu já estava morto. Dura condição a de um morto! Enquanto os dois jovens conversavam sobre assuntos que lhes eram pertinentes, fiquei observando o laboratório. Ambiente ascético. Todo branco, os lençóis mal colocados sobre as macas eram brancos, os objetos brancos, os jovens de branco se camuflavam. O cheiro de algodão e álcool. O cheiro e o gosto do álcool. O clorofórmio. Eu aspergindo aquela substância, os meus olhos pareciam querer saltar. Por sobre a pele, parecia que havia pregos afiados. Alguém veio e fechou meus olhos, por fim. A pálpebra fumegante.
Os jovens colocaram luvas de borracha. Estalaram as luvas e riram. Um riso sádico, eu frio de medo. Gelado, a placa de metal gelada embaixo do meu braço. Vamos abrir o chinês, diziam em voz alta. Eu não entendi muito bem o que eles queriam dizer. Abrir o cadáver. Cadáver vem do latino “cair”, cair e não se levantar mais. A pinça de metal, a pinça pegando fogo! Meus músculos, meu coração, meu rim! Eles me dissecaram. Havia pelo menos vinte médicos, bastardos! As máscaras escondendo os rostos dos criminosos. A precisão no corte. A cara de espanto dos dois estudantes. Descobri então que ambos faziam apenas residência. Ou seja, eram inexperientes demais. A luva de borracha batendo nos pulsos quentes. Plac, o estalar doído.
Colocaram-me numa piscina de formol. Com cuidado, pegaram minha cabeça e jogaram para trás, mergulhe! mergulhe! Meu corpo todo coberto por aquele líquido fedorento. É para conservar, eu imaginei. Quando o policial chinês me encontrou na rua e veio me fazendo aquela proposta indecorosa, fiquei inicialmente desconfiado. Afinal, eu era um mendigo. E mendigos não são bem tratados em lugar nenhum. Nem na China, aquele país vermelho, vermelho, imenso.
O policial veio me chamando por “mendigo” o tempo todo. Levou-me até um lugar próximo até onde estávamos. Eu usava trapos. Perguntaram-me se tinha documentos, balancei a cabeça com vigor, não, não tinha. A papelada ficou pronta em alguns dias, tinha então nome e um número. Eu já era um número há muito tempo, cresce o número de mendigos, saía sempre nos jornais. Um número. Ninguém nunca me deu atenção. Nem carinho, nem alimento. Carne e espírito maltratados. E a hora do descanso? A hora prometida, onde? Carimbaram em meus documentos que, após minha morte, eu faria um favor para a ciência e para a cultura. Que favor, quis perguntar. Não perguntei. Satisfiz-me em saber que faria algo pela cultura. E também me apetecia a idéia de não morrer como um indigente.
Morri numa tarde nublada. A rua deserta, a fome. A neblina baixa, barulhenta, atingia meus olhos. As pernas frágeis, os braços caídos para trás. Os meus olhos se fechando lentamente, lentamente, a morte! Segundo o atestado, morri de morte natural. É certo que morri de fome e a fome não deve ser encarada como algo natural. Mas é, não é? Cheguei a ser levado a um hospital, mas já era tarde demais. No dia seguinte, vieram me buscar.
Embalsamaram meu corpo. Colocaram-me dentro de um avião, nunca havia entrado em um daqueles. Ao decolar, comecei a me virar dentro do estojo em que tinham me enfiado. Cheguei, creio, nos Estados Unidos. Lá encontrei os dois jovens doutorezinhos. Vamos abrir o chinês. Emergiram meu corpo em acetona que percorreu minhas veias e preencheu meus músculos e órgãos. Em seguida, colocaram-me numa câmara de vácuo. Passaram por cima de mim uma camada molenga de silicone. Fiquei lustroso, brilhante, colorido.
Inicialmente, fui à Nova Iorque. Deixaram-me de pé sobre um púbito de madeira e cercaram-me com uma cúpula de vidro transparente. Fotógrafos vieram e tiraram fotos, muitas fotos, cada órgão exposto sendo registrado. Meu coração para fora. O meu sexo sem pudor. Meus rins. A aparência rascante.
Fiquei feliz por ver o fascínio das crianças e o nojo dos adultos. Pela primeira vez na minha vida eu fui observado. O ingresso na mão das pessoas, gastaram dinheiro para me ver. Para ver o meu interior, isso me deixava ainda mais alegre. Viajei o mundo, Holanda, México, Austrália, Brasil. Brasil, a oca de concreto. Enquanto centenas de pessoas passavam por mim encostando a mão na revestidura de vidro, eu ficava pensando. Mas o Brasil é um país tão pobre, como podem pagar 15 dólares só para verem corpos de mendigos? A ciência! A cultura! Quando as luzes do salão de exposição se apagavam, o frio. E a voz do jovem cientista, vamos abrir o chinês.

13.04.07

Onde está o meu sonho?

Eu queria dormir. Dormir para sempre. Mas o castelo afundou e depois emergiu, glub, glub. Tocava Debussy no celular-despertador. Diria despertador-celular pois o grande préstimo que ele me faz é me acordar. Sempre muito cedo, antes do sol nascer, acorda! acorda! Debussy, me deixe dormir mais, esse som eletrônico, não!
Que fria está essa água, pensei ao abrir a torneira, a água gelada. Era uma manhã de verão. Abri a janela e senti o hálito quente de fevereiro. Era fevereiro, já havia passado o carnaval, havia? Não sei, não gosto de carnaval. Lembranças, lembranças. O gosto do papel, abre a boca!  A boca entupida de confete, os grunhidos, o grito abafado, o choro. Não chore, é carnaval! E dito isto, o Pierrot se espalhou pelo salão forrado de serpentinas que a japonesa jogava do alto de uma janela, sorria a japonesa. Onde está o Pierrot?, saí perguntando a todos que via. Que Pierrot? Não há Pierrot nenhum aqui!, me diziam. Andou fumando é? Não, não fumei, cadê meu Pierrot de rosto branco de porcelana, as roupas coloridas, a voz pastosa? Desapareceu na nuvem gasosa e perfumada, no burburinho, nos gritos, nos gemidos.  E eu chorando, os dentes ainda mordendo o papel, a agonia.
O rosto do Pierrot era de cera. A chama alta e aleivosa derretendo-o em gotas lentas. O fogo consumindo tudo. "Acorda!". Eu estava dormindo na privada, meus olhos tão pesados, o fogo! Lavo o rosto novamente e a água já não me parece tão gélida. Parece-me natural, brotando duma bica ou caindo numa cachoeira, chuá! A cachoeira! A água intensa, machucando os ombros nus. Um soco certeiro. "Meu avô era pugilista", ela disse tirando as luvas vermelhas e abraçando o saco de areia, deixe-me ver seu rosto, quem é você?
"Acorda!". Abri os olhos rapidamente, esfreguei as mãos fechadas nos olhos secos, incrustados por uma fina camada de poeira. O ônibus estacionou ao meu lado e levantou poeira do asfalto marrom. O cheiro do óleo combustível queimando, as rodas enormes, as calotas lustrosas. O motorista com o cabelo besuntado de brilhantina atropelou a mulher de branco, cabelos pretos e longos, os lábios finos e transparentes. O grito de "não" abafado pelo motor do ônibus assassino. Aquele Opala preto matando um por um, socorro mãe, socorro! O ronronar do ônibus velho, ron ron, volte aqui! Olhava para os lados e só via placas, provavelmente itinerários. Destinos. Relógios, também havia relógios. Todos eles delimitando a vida. Aqueles ponteiros, que hora marcavam?
A chave. Estava ainda sonolento, qual é a certa? O encaixe na fechadura, plec. A rua ainda escura, uma e outra janela se acendiam com preguiça. No ponto de ônibus havia gente se entreolhando. A censura. No céu, um resquício prateado da lua, parecia pó argênteo jogado no céu. O pó se dispersando e sumindo. O resquício. De tudo fica um pouco. E do meu sonho? O que restou? Os relógios, a mulher atropelada seria um anjo? Decifre seus sonhos, esse era o nome da revista. Na capa, uma homem de cabelos loiros e sorriso branco abraçado a uma mulher de cabelos igualmente dourados. Pude ler pouca coisa, sonhos com galinhas, com parentes mortos, com avestruzes, com chaminés.
O piano. A cauda branca, as teclas pareciam mármore. Era todo pesado, imponente, rígido. Seu interior era abissal, alôôôô. Eu, sentado ao piano, tocava algo, o que era? Debussy? Lembro-me vagamente da melodia, tan-tan-tan-ran. Sentia meus dedos maiores, minha mão inchava, olha! olha! As paredes eram azuis e pareciam o céu. O céu nesta cidade é visto em tantas matizes, é degradê, dizem. A poluição. O piano. E depois dele, o que há? Ele parece derreter-se como a cara do Pierrot. Cadê o resto do meu sonho? As notas esgarçadas tiradas do piano, quero fazer aulas, ainda há tempo?
Já chegamos, disse o cobrador do ônibus, batendo a mão espalmada em minhas costas, o senhor dormiu o trajeto todo. Olhei para ele, o bigode enorme, preto. Parecia que o tinha visto no baile de carnaval, viu o Pierrot?
Desci do ônibus, as pernas pesadas, os olhos ardendo. Andei por algumas quadras pelo centro da cidade. Procuro o resto do sonho. A memória, "a memória de um computador é mais eficaz", disse o técnico abrindo a máquina, só faltou sair um coelhinho de lá de dentro. Magia.  O resto do sonho, onde? Onde perdi meu sonho? Em que edifício, em que rua, em que esquina? Onde achá-lo? Onde procurá-lo?


Marcos Vinícius Ferrari


Eis o meu delírio, longe de ser um machadiano. Mas aí está o meu delírio de todas as manhãs.

12.04.07

Triste ou A história da palavra

Brota das pedras um magro filete de palavras. Elas nascem ordenadas e miúdas. Depois, o rio engrossa e adquire velocidade e força. Caudaloso, percorre dezenas de cidades diferentes. Em cada uma delas, deixa uma gota, molha a margem árida e sedenta conforme meneia devagar. Vai livrando-se de um pouco de si, um braço, uma perna, um membro essencial.
Em certos momentos, bifurca-se. As palavras se chocam com violência e se separam. Seguem por caminhos diferentes, a margem encurta-se desafiadora. As palavras se atritam, se aquecem, se cruzam, se diluem. Palavras de aço, palavras de plástico. Invólucros de vidro.
Dentro de algum tempo, desaguam no oceano. Um vão homérico preenchido por palavras. Palavras, palavras diferentes unidas por uma salgada irmandade. “É o sal da vida”, diria algum poeta.
Mas há uma palavra que destoa das outras. Os braços rijos, firmes, abrem-se ritmados. Nada com sofreguidão, atravessando camadas cristalinas com fluidez. No meio da imensidão azul, encontra uma ilha. Um pedaço de terras cercado por palavras. Ouviu isso em algum lugar, onde? Cai arfando na areia quente e ali repousa. Se as palavras sonham, certamente ela sonhou.
Depois, acorda, olha ao redor atônita. Uma preocupação lhe punge com violência: como definir esta ilha? A palavra – e esta é a sua função – começa a moldar-se como o artesão manuseia a argila fria. Triste. Eis a definição perfeita: areia triste, palmeiras tristes, farfalhar da mata triste, ilha triste enfim.
Estou consubstanciada, pensa, sempre gostou de palavras difíceis e longas. Encontra certa beleza em seus sulcos. Aliviada, a palavra decide conhecer a mata majestosa que se agiganta para o interior. Conhece bichos, cores, sabores, sons, pedras. Enleva-se com o cheiro da terra molhada, com a frescura do céu e das folhas. Tropeça com displicência em uma garrafa. Uma garrafa meio enterrada na terra pastosa. E dentro dela, uma mensagem. A palavra já desconfiava que encontraria algo assim tão típico.
Com certa dificuldade, abre a garrafa e tira o papel já amarelecido. “O que fazem você aí, trancafiadas?”, pergunta com o olhar rígido para as palavras amontoadas, a caligrafia débil. Um bêbado, um náufrago? As palavras, num suspiro, respondem: “É a nossa missão, entende?”. A palavra triste faz que sim. Enrola o papel, coloca-o de volta ao seu lugar. Deixa a garrafa onde a encontrou. Meio enterrada, o gargalo para cima pedindo ajuda. De volta à costa, a palavra refestela-se na areia, quase cega pelo sol. Aquele sol de Camus, a lembrança da água gélida, o frescor, a liberdade! A liberdade da palavra escrita. Abre novamente os olhos e encara aquela esfera quente e violenta que insiste em tentar lhe admoestar. Seus olhos se molham, as lágrimas escorrem quentes. O sabor do sal. “Minha missão é ser triste”, constatou caindo para a trás e batendo-se contra a areia. Agora dorme e sonha a palavra.


Marcos Vinícius Ferrari