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- Laura!!
Ouvi uma voz aguda e baixa e senti uma mão fina e quente enlaçar meu braço nu. Meus reflexos não me permitiram pensar antes de virar para verificar de onde saira a voz. Apenas rodopiei de sobressalto, aquela mão estranha ainda me tocando. Vi Olívia.
- Sente-se comigo, Laura! – disse exultante e os olhos pareciam duas bolas vermelhas de Natal, faltava uma semana para comemorarmos o nascimento do menino Jesus lá naquela manjedoura estreira de palha dourada e fresca. Olívia parecia uma criança cansada, a alça do vestido caindo preguiçosamente sobre os ombros descortinando-lhe o colo largo e honesto. Os brincos reluziam com um estalar verde folhudo e doce. Suas mãos brilhavam como se lhe tivessem peneirado ouro por cima. Seus cabelos ainda guardavam o ruivo invejado pelas garotas da época, mesclado pelos fios brancos que ousavam saltar dando-lhe uma aparência que, não sendo boa, não era má. Olívia estava velha.
Não esperava encontrá-la ali naquele restaurante uma semana antes do Natal. Na verdade, nem queria encontrá-la. Havia quatro anos eu a evitava sistematicamente. Inventava compromissos, falava inverdades mas não me sentia mal. Conhecia Olívia havia 35 anos e sempre fomos a melhor amiga uma da outra. Desde os tempos de colégio onde aprendi pouco e ela menos ainda. Éramos alunas aplicadíssimas mas o conhecimento que se ensina com giz-e-lousa se perde facilmente. E ele se perdeu em Olívia ainda mais.
Começamos a conversar por acaso num dos corredores da escola. Eu era uma garota estranha, eu me achava assim. Olívia tinha porte mas eu não a invejava, apenas a admirava. E assim nossa amizade cresceu de tal maneira que em dois anos dividíamos as mais secretas intimidades. Sempre quis ter uma grande amiga e vi em Olívia esse potencial. Durante minha faculdade de Sociologia, durante a minha prisão, durante o meu exílio, durante os partos, durante as agonias. Ela sempre esteve disposta a ajudar, a mão fina, que eu não reconhecera, apertando a minha, força, força. É uma menina, ela sussurrou sorridente no meu ouvido, é uma menina. E a sua voz baixa foi quebrada pelo choro de Alice, miúda, úmida e quente.
- Nunca pensei te encontrar justo hoje e justo nesse restaurante! Que agradável coincidência, ela disse. Eu sorri disfarçando certa condescendência, eu também acho uma coincidência maravilhosa – disse e inflexionei a última palavra como nos tempos antigos.
Olívia era uma pessoa agradável, de senso de humor arguto e afável, muito afável. Até Alice nascer, tínhamos conversas longas e prazentosas, um delicioso companheirismo e um maná infindo de afinidades. Depois, fomos nos afastando cada vez mais. Ela ainda me telefonava para contar-me fatos que haviam lhe ocorrido, mortes, tragédias, casos da redação do jornal, lia-me artigos inteiros pelo telefone. Nesses telefonemas, que eram extensos, havia espaços de áspero e palpitante silêncio. Ficávamos, o telefone colado à cara, sem falar pois não havia assunto.
- O que fará nesse Natal?, perguntou me Olívia levantando pela sétima vez a alça teimosa do vestido e observado se alguém a via fazer tal gesto. Abanava-se com o cardápio cheio de preços e pratos que me distraíam, eu lendo os pratos e suas composições e Olívia inquieta com o calor.
Talvez meu silêncio aturdiu Olívia que começou a mastigar a comida com o vagar incômodo da criança que espera a vida toda pelo presente de Natal que nunca chega. Comecei a devorar meu prato e decidi encontrar algum assunto para colocar em pauta, ela dizia assim, colocar em pauta. Jargão de jornalista, ela dizia rindo-se, jornalista premiada. Fui vê-la receber aquele prêmio, ela estava vermelha e transpirava nervosamente. Antes de subir para receber a pequena estatueta de bronze talhado sem cuidados especiais, ela queria me ver. Chamaram-me até a cochia, ela queria me abraçar, que eu lhe dava sorte. Você me dá sorte na vida, ela repetiu baixinho, aquelas mãos brancas.
Isso foi há dez anos e, dali em diante fomos e não fomos mais as mesmas. Ainda admirava Olívia, gostava dela, era sua amiga como nos velhos tempos. Mas sua presença me exauria, seus telefonemas me eram enfadonhos, seus assuntos me eram indiferentes. Mas eu era amiga de Olívia? era, eu repeti para mim mesma ao ver a foto em que estávamos juntas na neve crocante de Bariloche, eu era amiga de Olívia, sim.
Ali na mesa redonda do restaurante, agíamos como duas mulheres que se desconheciam há 35 anos. Eu queria pôr algo em pauta, o que, meu Deus? Falar-lhe de livros? Falar-lhe que viajaria para Londres no próximo ano? Não, já havia lhe falado disto no último telefonema. Falar-lhe de política? Não achava graça, ela estava muito mais dentro do assunto do que eu. Falar-lhe de poesia, do calor, dos filhos, da poluição dos rios, das horas que andam passando mais rápido. Nossos assuntos se esgotaram, eu olhando Olívia tão sóbria e simpática, o sorriso branquíssimo. Eu me sentia como se me afogasse numa lagoa de água anuviada como meu coração e Olívia me estendesse sua mão, a mão que eu nem mesmo reconhecera. O toque suave. Eu me afogava, minha boca se enchia daquela água barrenta, meu nariz. Mas eu me afundava plena na consciência de que a mão de Olívia estaria ali, parada como a duma estátua, rija como a duma estátua.
Fui-me embora do restaurante após abraçar longamente Olívia e prometer ligar-lhe assim que pudesse. Salientei que levaria algum tempo; mas que telefonaria. Peguei minha bolsa e fui caminhando rumo à porta de vidro que me permitiu ver a cidade em vermelho e em negro. Uma fileira de tochas acesas estendia-se pela rua escura e pequenas chamas líquidas decoravam os edifícios que riscavam com grafite o céu. Entrei num táxi tal como chegara. E no conforto do banco de couro macio, fui pensando em Olívia com imensurável carinho. Olívia era minha melhor amiga. Não tínhamos assunto, não tínhamos tempo, não tínhamos idade. Mas amizade era para mim algo transcedental. Amizade, eu repeti comigo após o baque do táxi freando, é coisa de telepatia. De longe, nós sentimos uma à outra. No escuro abissal de nossas lembranças, nos queremos bem uma à outra. Essas coisas lindas, essas coisas ficarão, disse o poeta! exclamei para o taxista que abanou a cabeça com descrença me avisando que, enfim, havíamos chegado.
Marcos Vinícius Ferrari

criado por Casmurro sem teto
00:04:18 Tudo era silêncio quando ele chegou. Sentou-se próximo de mim, obersvou-me com certa curiosidade. Era um final de tarde, a neblina quente e úmida já estava baixa e era tangível. O final da tarde, para mim, é o momento mais melancólico do dia, o mormaço veloz, o Sol enleado com o horizonte sereno esgalhando-se em fios dourados que nas extremidade de afogueiam, se arroxeiam também. O rebojo das nuvens era pouco visível: o céu era uma vasta paisagem homogênea e esbranquiçada. O chão estava molhado, as plantas por isto pareciam felizes, lânguidas, moles, radiosas.
Eu estava sentado num banco de pedra defronte dele, enjeirido de frio. Eu lia Clarice Lispector, Felicidade Clandestina, os contos. Palavras-faca, eu ali imóvel, o clube se esvaziando, o que eu fazia ali mesmo? Eu precisava saber que horas eram, desejava saber as razões de estar ali naquela tarde tão quente-fria. Mas não podia; não conseguia me desvirtuar de Clarice, palavra concatenando palavra e eu sem poder respirar. O trapézio! O livro fino parecia grudado, atado às minhas mãos, intrínseco a mim – e parecia que a minha vida toda eu estive junto do livro, naquele momento ele me era essencial. O que eu estava fazendo ali?
Mas ele continuava me olhando, agora com certa estranheza. Devia me ver tão atento, tão fixo e achar estranho. Voltei meus olhos para o livro mas, de esguelha, pude ver que ele se levantou de onde estava, ergueu os braços como se se espreguiçasse e caminhou na minha direção. Mas parou a uns três metros de mim, eu acho que já o conhecia. Devia tê-lo visto algumas vezes pelos corredores do clube, de relance. Tinha a cara estranha, os olhos gordos, a pele clara, os cabelos vastos e escuros. Era ele todo estranho. Não pude mais me concentrar em Clarice, a magia havia sido quebrada. A força irresistível de atração àquelas páginas perfumadas, àquelas palavras unidas, pares, escurecidas. Uma gota de água caiu bem em cima da página aberta do livro, droga! Uma mancha imensa se fez na página límpida.
- Droga!, gritei, verificando que começara a chover. Percebi que ele vira a minha irritação e começou a me fitar com certo encantamento. Mas talvez olhasse fixamente para o livro que repousava fechado sobre minhas mãos unidas em forma de concha.
- Com licença, qual é o nome do livro? – ele me perguntou. Imaginei o esforço e a dificuldade de me abordar livrando a timidez e a vergonha. Mas a voz não saiu epifânica e sim baixa e macia.
- Felicidade Clandestina – disse de prontidão como se estivesse esperando por aquela pergunta desde a eternidade.
- De...quem? – a voz saiu quase chorosa.
- Clarice. Clarice Lispector. Uma grande escritora.
Ele mexeu a cabeça concordando. Os olhos estavam lacrimejantes, mas não queriam dizer que estavam chorando – como a garota Ofélia de um dos contos. Fiz logo esta associação e encarei-o com certa piedade. Sempre detestei sentir pena dos outros, mas naquele momento senti isso pulsar, com força e dor. Os olhos infantis presos no livro que eu, egoísta, segurava contra o peito protegendo-o da garoa fina e renitente. As plantas ainda mais felizes lançando num sorriso vegetal o sorvedouro da água cheirando a poeira. Senti-me como a garota da história que evitava que a outra entrasse em contato com outro livro. E ele era a garota obstinada, os olhos acesos pegando fogo, as noites em claro pensando num único livro – sua salvação. Ou eu o era?
- Você quer ler? – eu indaguei, apontando para o livro apertado contra a lã seca da minha blusa.
Inicialmente, achei a pergunta por demais descabida. Não emprestaria o livro para um quase-estranho mas poderia deixá-lo ler ali um conto, um trecho, uma passagem. Ele estava já na minha frente e, com muita descrição, exigia-me o livro, dê-me o que me prometera, ele parecia balbuciar com a boca fechada e sigilosa. Ele parecia clandestinamente feliz e eu ainda mais por dar-lhe uma centelha de literatura e beleza. Fico feliz em compartilhar essas coisas tão ínfimas para alguns, tão insigne para outros. Eu estava dando-lhe o mundo.
- Que conto...que conto você me sugere? – perguntou desfiando um sorriso sincero.
Disse-lhe que lesse qualquer um, abra aí e leia, eu falei. Ele sentou-se ao meu lado no banco de pedra cinza molhado um pouco encabulado. Mas o constrangimento passava nos instantes em que seus dedos desfranziam as páginas rijas. Talvez ele nunca tivesse pego um livro, sentido as nuanças e, por dois ou três minutos, crido que o leria, o desvendaria e o aplacaria em sua fúria natural. Ou não.
Ele abriu em um conto e preferi não olhar para não o envergonhar mais. Voltei a olhar para as plantas que ficavam, não sei o porquê, mais verdes. O céu escurecia lentamente e lembrei-me de que eu já devia estar em casa. Havia um zilhão de coisas a serem feitas e eu ali, estático, observando pela primeira vez as plantas e vendo nelas certa humanidade. As flores. Peguei uma delas, a mais colorida de todas. Ela tinha cor, tinha porte, era bela. O ser humano é tão feio, eu disse-lhe em voz baixa e ela murchou num suspiro de confirmação e tristeza. Eu ainda tentei ressuscitá-la, a beleza está em você, está em suas irmãs-flores, está nos livros. Está na literatura.
Havia novamente o silêncio do mundo enquanto ele lia o conto. Calculei que ele já deveria estar terminando-o, mas estava impassível, imperturbável. Senti-me incomodado e feliz. Imaginei que, naquele dado momento, dentro dele abriu-se uma torneira gigante despejando em suas veias e vasos um líquido espesso. Como uma catarata veloz e pesada. E ele seria todo percorrido, todo lavado em literatura. Há gente demais sedenta dela. Há mistérios demais e respostas de menos.
Dali a dois minutos, ele enfim terminou de ler e uma lágrima escorreu dos seus olhos respingando sobre o livro. A garoa já havia cessado. Ele, antes de mais nada, apressou-se em pedir desculpas por ter molhado o livro, borrado a tinta escura. Ele não pedia perdão pela lágrima mas por ter borrado meu livro! Ele não se sentia envergonhado por encontrar em Clarice Lispector alguma espécie de resposta ou de conforto ou ainda de tensão. Ele não se envergonhava mais de ter encontrado a beleza do mundo que eu, humildemente, havia lhe apresentado
Marcos Vinícius Ferrari

criado por Casmurro sem teto
21:47:51 Quando entrei, percebi que muita coisa havia mudado. As paredes, antes verdes, estavam agora azuis, tranqüilas, celestiais. Recostei-me num paredão de ardósia cinza, da cor e da temperatura do borralho - quente. Era uma tarde de verão e o Sol reinava insigne em vão coberto por um manto leitoso, azul, límpido e preclaro. Fazia calor, confesso, mas eu insistia em usar um blusão preto, grosso, cheio de bolsos e zíperes. No caminho, havia vindo sem ele e o vento! Ventava bastante, um sopro gelado e eu me arrepiei todo. Estremeci de frio, senti-me desprotegido e logo vesti a jaqueta.
- O senhor está esperando há muito tempo?
Balancei a cabeça com força, não, cheguei faz cinco minutos. Era a enfermeira-chefe, eu a conhecia da primeira vez em que levei mamãe até lá, chamava-se Lúcia. Era alta, gorda, clara, de cabelos enferrujados e boca vermelha. Tenho costume de reparar na boca das pessoas e digo que elas representam uma parcela da personalidade do indivíduo. Uma parcela da dignidade, não sei. E os lábios de Lúcia não tinham nenhuma dignidade; eram uma tentativa de resgatar a mocidade acinzentada metendo-lhe matizes de vermelho. Imaginei então Lúcia passando o batom afogueado e se pintando toda, rabiscando a cara enluarada e pálida, os riscos.
Lúcia acompanhou-me até o segundo andar e deixou-me em frente à porta. Ela me encarou e isso incomodou-me um pouco. Parecia querer me fotografar com aqueles olhos infantis, me filmar, me gravar na memória. Era um olhar de pena dissolvida em desilusão. Fiz um gesto para Lúcia pedindo educadamente que saísse. E assim o fez.
Bati duas vezes na porta, perguntei se podia entrar. Uma voz frágil respondeu que sim, pode entrar. Entrei e vi que também haviam pintado os quartos. O verde dos cômodos internos dera lugar a um amarelo trigueiro e sereno. A cama mudara de posição: agora ficava embaixo da janela velha de madeira fosca. O guarda-roupa era o mesmo, os quadros na parede eram os mesmos. Ainda havia aquele grande espelho ao lado da penteadeira de jacarandá repleta de frascos de perfume vazios. Surpeendi-me ao ver também um vaso cafona de flores pintando com certa alegria o marasmo do jacarandá duro como sempre. Essa penteadeira é dela desde que se casou. Apenas decidiu trazê-la de casa quando se mudou, foi a primeira exigência, minha penteadeira!
- Mamãe! Como vai? – disse-me indo em direção à cama e sentando-me ao seu lado.
Ela resmungou algo que não pude ouvir. Continuou a olhar para um ponto fixo, o que seria? Toquei meus dedos em seus ombros e o robe lilás escorregou para trás deixando-lhe parte dos braços nus. Fale comigo, mamãe! Fale comigo! Debalde, ela estava imóvel, rija como aquele jacarandá pesado, como foi difícil tirá-lo de onde estava e colocar no caminhão que faria a mudança! Eu e mais cinco homens carregando-o, cuidado, o degrau! Um deles, no meio do esforço e da transpiração, ousou brincar: “Mas é a sua mãe que está aqui dentro?”. Eu não ri, apenas afirmei que a penteadeira era pesada mesmo e que se calassem! Estou fazendo um gosto da mamãe, disse comigo mesmo enquanto descia as escadas. Paguei aos outros cinco uma rodada de cerveja e acabei tomando uma também. E outra, e outra, e outra até que fui levado em casa pelo dono do boteco, amigo da mamãe. Ainda bem que sua mãe não está aqui para ver isto, ainda bem!, ele balbuciava com o seu acentuado sotaque português.
- Mamãe, olhe para mim. Quero saber como a senhora está. Eu vi que tudo está bonito, colorido, do jeito que a senhora gosta.
Estava triste, pesarosa. Lembrei-me do dia em que a família decidiu enfim interná-la num manicômio. Eu convenci minhas duas irmãs que a situação era insustentável, ela está mal, muito mal. “Não responde ao que eu pergunto, não entende nada, fica o dia inteiro deitada na cama, choramingando, delirando, chamando pelo papai, ela o vê entrando, tirando a farda, despindo-se para ela”, disse e vi que as duas se conformavam. Ao final, capitularam. Eu disse que acharia um bom lugar onde ela pudesse viver os seus últimos dias com dignidade. Dignidade, eu disse num tom mais alto e levantei-me antes de que elas fizessem alguma objeção.
“Você não é um filho – é um monstro!”, eu ouvi Anita gritar depois que eu deixei a mesa. Um monstro, um monstro, um monstro!, ela urrava, batia com a mão fechada contra a mesa, chocava os sapatos de salto contra o chão, descabelava-se. Eu me tranquei no quarto, fiquei colado à porta, respirei fundo, respirei. Por duas vezes cogitei voltar à cozinha e gritar também com Anita, eu não sou um monstro, sua mãe é que é louca! Uma louca com éle maiúsculo, uma doida varrida! Mas por duas vezes vacilei. No quarto contíguo, mamãe dormia. Dormia profundamente sob efeito dos remédios que eu lhe dava, naquele dia ela precisava debruçar nos braços de Morfeu sem ressalvas. Não queria que ela ouvisse as discussões.
- Mamãe, a Lúcia me disse que você continua fazendo crochê, não é? Que bom! Assim você se ocupa um pouco, não é mesmo? – disse-lhe, colocando minha mão sobre a dela.
Ela rapidamente tirou sua mão enrugada e transparente. As unhas roídas, sujas. Os lábios mortos, sem viço. Decrépita. Estava velha, arruinada. Devo-lhe muitas coisas, pensei. Ela me colocou no mundo, me amamentou nos primeiros momentos. Ela me amou e eu a amei. Eu a amei tanto que fiz o favor de dar a sua vida uma centelha de dignidade. Ela devia me agradecer, a ingrata. Mãe-ingrata. Decerto, ela pensou que viveria para sempre no meu apartamento, eu sustentando uma empregada e ela envolta em lençóis, o sonho, “o seu pai me apareceu essa noite tão lindo, tão lindo”. Não tínhamos afinidades, eu nem podia colocar os discos que queria na vitrola e ela chiava. Mater-dolorosa.
- Mamãe, não vai falar comigo hoje? – indaguei, quase desistindo.
- Você é que é o louco. Você é que deveria estar no meu lugar – ela disse levantando-se e sentando-se em frente aos seus perfumes. Você que é o louco.
Marcos Vinícius Ferrari

criado por Casmurro sem teto
02:30:07- O turco está chamando a gente! – eu gritei correndo atrás de Nélson, que já entrava em casa.
Parei arfando em sua frente. Disse-lhe que o turco queria que nós lhe fizéssemos um favor. Que favor? Não sei, Nélson, não sei. A cara vermelha e lustrosa de suor de Nélson estava entre cansada e irritada. Ele pegou a bolsa que estava repousando no chão de pedra esverdeada, vamos, então!
O turco era Alfredo. Alllllfredo, eu pronunciava assim, o olhar desafiador, correndo entre as prateleiras da mercearia. Ele sempre falava assim, repousando a língua mansa no céu da boca por um longo tempo, alllface, álllgebra, álllllcool. Dizia que eram palavras derivadas língua árabe. Árabe, ele inflexionava com certa incisão. A todo momento, Alfredo ressaltava que não era turco e que não o chamasse assim! “Turcos são malditos, malditos” ele dizia baixinho, em tom de reza recôndita e rebuçada, enquanto fixava os preços nos produtos, clép, clép. Mas por Alá, saiam daqui crianças malditas!!, ele bradava ao nos ouvir derrubando as latas, as conservas rolando no chão. Que prejuízo!, dizia com a voz chorosa.
Alfredo era velho, gordo, tinha a pele bronzeada e rota, nariz largo, os lábios grossos e reticenciosos, as sombrancelhas vastas. Nos raros dias de bom humor, Alfredo sentava-se num caixote de madeira em frente à mercearia e me chamava para, juntos, chuparmos algumas mexericas gordas, Alfredo tirando a casca com a unha grande e suja e eu só olhando. Enquanto ficávamos ali, ele me contava histórias do povo dele. Sabia que a palavra xarope veio do árabe? Eu fingia certo espanto e ele, rindo-se, abaixava-se, como se para segredar algo, e dizia que signficava poção na língua dele.
Enquanto chupávamos as mexericas, ao meu lado ficava a Gata. Era uma gata vira-lata, de pelo caramelo e olhos cor-de-fogo. Fogo do inferno, Alfredo dizia, essa gata veio do inferno! Chamávamo-na de Gata por não ter outro nome. Um dia eu e meus amigos – incluso o Nélson – descobrimos o nome da mãe de Alfredo – Almerinda – e decidimos, por gozação, que a gata chamaria-se Almerinda. Allllllmerinda. Mas Alfredo logo ouviu e zangou-se, as sombrancelhas grossas desabaram sobre os olhos, os dentes morderam os lábios com tanta força que espirrou uma gota tímida de sangue. Era melhor que ela se chamasse apenas Gata. E pronto.
Eu gostava de brincar com a Gata. Era folgadamente gorda, os pelos escassos e aranhiços, os olhos moles. Ela mal se agüentava sobre as quatro patas, que se flexionavam para suportar seu peso incomum. Era dócil, gostava de passar sua língua espinhada nas nossas mãos, nos nossos braços, na nossa cara. Deitava sobre as nossas pernas e ali dormia um sono profundo e invejável. Às vezes, deitava-se sobre Alfredo, que logo a afugentava com violência. Ele já havia tentado expulsá-la da frente da marcearia, contudo ela sempre voltava ao mesmo lugar. Ela gostava de passar os dias e as noites ali.
Algum tempo depois, descobrimos que a Gata estava grávida. Alfredo ficou colérico, agora ainda terei gatinhos malditos em frente ao meu estabelecimento? Não, não e não, gritou. Na manhã seguinte, a Gata já havia parido os três filhotes. Dois deles eram caramelados como ela. O terceiro, tão miúdo como os outros dois, era mais escuro, a tonalidade de sua pele pendia para o cinza. Devia ser a cor do pai, certamente outro gato tão vira-lata como a mãe. Eu passei em frente à mercearia e vi Alfredo incorformado vendo a Gata amamentando seus filhotes, eles mordendo a mama da mãe, os dentes por mais que jovens, afiadíssimos. Entretanto, nem assim Alfredo se sensibilizava. Devia lembrar-se de dona Almerinda e, provavelmente, as lembranças não eram muito boas.
- Ô garoto – ele me chamou – avise ao seu amigo Nélson que preciso de um favor de você dois!
Chegamos eu e Nelson lá e encontramos Alfredo andando com um balde cheio d’água até a boca. Assim que nos viu, largou o balde no chão e disse que nos daria as instruções. Estremeci de medo pois já adivinhava os planos dele.
- Crianças – ele forjou a voz doce – eu quero que vocês se livrem daqueles gatos malditos.
- Como? - perguntou Nélson, sem nenhum resquício de escrúpulo.
Alfredo descreveu tudo com minúcia. Disse que estava indo justamente à cozinha para ferver a água. E depois, era só mergulhar os pobres gatinhos na água, chiiiii. Fiquei arrepiado, chiiii. Eu decidi que me recusaria a fazer tamanha crueldade e, por alguns momentos, estranhei Alfredo.
- Olha, se vocês me fizerem isso... – um instante para pensar – eu deixo você pegarem o que quiserem daqui da mercearia durante uma semana, o que me dizem?
- Tudo o que quisermos? – indagou Nélson.
- Sim, tudo! Doces, doces, muitos doces. Topam?
Nélson fez um gesto afirmativo e Alfredo o levou até os fundos da mercearia. Eu fui atrás dos dois. Chegamos até a porta de Alfredo que era contígua à mercearia. Ele entrou, se demorou uns cinco minutos, e voltou com um balde fumegante. Atirou-o no chão e nos trouxe uma caixa de papelão com os três gatinhos. Não tinham o olhar de fogo da mãe deles, mas um olhar transparente de inocência. Meio esverdeados, profundos. O pêlo macio, as patas frágeis, o rabo perdido no ar. Chiiiiiii.
- Vai, você começa! – disse Nélson tirando o gato acinzentado da caixa – mergulhe-o aí! Vamos, rápido, que eu quero os doces, doces, os muitos doces!
O gato me olhou como se implorasse clemência. Mas, filho da Gata, e os doces? Não posso perder essa oportunidade, eu disse. Segurei-o firme pelo rabo e o mantive a alguns centímetros da superfície da água quente. Balancei-o para distrair o Nélson enquanto pensava no que fazer. Concluí que matá-lo seria, por mais que doloroso, um ato necessário. Se ele sobrevivesse, morreria por aí de fome ou frio. A Gata não parecia ser uma mãe zelosa, você irá sofrer!
Mas vacilei, a água já estava ficando fria. Contudo, se ele não morresse escaldado, morreia afogado, ai meu Deus! Chiiiiiii. Senti na minha boca o gosto da jujuba, do chiclete emborrachado, do chocolate, quantas delícias! Levantei o gato um pouco mais e disse ao Nélson que começaria por um dos outros dois. Afinal, o Gato-Cinza já nascera diferente e talvez houvesse alguma razão para tal. Segurei um dos gatos caramelados pelo rabo e fui descendo-o, lentamente, até o balde. Ele se revirava todo, as patas lutando contra o ar, as unhas afiadas colocadas para fora, meu Deus! não dificulte as coisas, Gato-Caramelo, entenda! Mas ele não entendia, grunhia, miava, urrava de dor antecipada. Pedi que ele se acalmasse, nada. Ele trêmulo, as orelhas a alguns centímetros das bolhas.
Nélson ria de mim e dos gatos. Exasperei-me definitivamente, deitei o gato no chão e saí correndo, o choro preso. Atravessei o quintal, entrei na mercearia derrubando latas, o prejuízo! Cheguei até a rua e encontrei Alfredo sentado no mesmo caixote descascando mexericas com certa tranqüilidade.
- O que foi, garoto? Já terminou o serviço? Então, pode pegar o que quiser, não tenha vergonha!
Eu virei-me e atravessei a rua em direção à minha casa. E fiquei só imaginando Nélson rindo e mergulhando os gatos n’água, chiiiii. O Gato-Cinza calmo, sereno, esperando a hora da morte, enquanto o Gato-Caramelo fazia um escândalo aterrorizador. Os olhos transparentes. A fervura. E, não sei porque, senti ódio da Gata. Achei que ela fosse a maior culpada. Enquanto os filhos estavam morrendo, ela estava lá, mole, caçando as cascas azedas das mexericas que Alfredo jogava.
Marcos Vinícius Ferrari

criado por Casmurro sem teto
20:38:37Eu costumo colocar apenas textos meus aqui. Mas hoje, abro espaço para o maravilhoso Álvaro de Campos e deixo para vocês o Poema em Linha Reta.
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos

criado por Casmurro sem teto
22:13:29