Casmurro sem teto

"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma" (Fernando Pessoa)

Casmurro sem teto

"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma" (Fernando Pessoa)
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Terra Blog

Arquivo de: Junho 2007

21.06.07

O pescoço

Vitor chegou me pedindo um texto para que ele interpretasse no Sarau Macabro que, inclusive, aconteceu hoje na escola. Encomendou-me um texto e eu estava naqueles tempos com uma idéia na cabeça ainda confusa. Aí perguntei-lhe ao certo o que queria e me pediu a história  de um ator.
Hoje ele deu vida ao texto no Sarau; e aqui está "O pescoço"  que, diga-se de passagem, foi o mais comentado da tarde. Essa parceria autor-ator vai longe...


   Sim, o espetáculo de hoje foi bom. Ou não. Não sei, ultimamente todas as noites têm sido iguais. Igualmente melancólicas. A Lua. Essa esfera de leite morno, excelsa e bela. E eu, com a boca aberta esperando que ela se derrame inteira. O céu é sempre o mesmo, grave e negro sobre nossas cabeças. Há estrelas vagas e opacas que estão perplexas e hesitam parecendo cair; há um silêncio metálico. E se olho para o céu, mais abissal é a minha alma. Sou um abismo. Sou um vão. Sou um hiato. Ah...o teatro hoje estava vazio, talvez mais vazio do que ontem. Apenas um terço das cadeiras estavam ocupadas. Não costumo olhar para o o público durante o espetáculo mas, se olho de esguelha, enxergo pontos coloridos bordados na paisagem esfumaçada e escura. Havia hoje gente dispersa, desatenta, mal-educada...malditos!
   Eles, entretidos com algo que eu desconheço, nem perceberam quando meus dedos...Meus dedos! Que tocam com asco as paredes velhas desse teatro. Mas eu não reclamo. Estou vivo quando interpreto e sacio, como um animal bravio, essa fome implacável. Sinto-me vivo e alerta. Sinto, talvez, comunhão. Pareço integrado a estas paredes; à cortina arroxeada de veludo; à lâmpada que fria que, com sua luz avara, desnuda as órbitas de poeira; ao carpete úmido e fétido; às tábuas soerguidas do palco emadeirado e vermelho. Tenho uma crença arrebatadora nessas coisas. Em tudo, eu vejo fome e desejo de viver. Vejo um respiro ainda que último das coisas inanimadas. Vida! E eu vi vida no pescoço moreno de Regina quando entrelacei meus dedos nele. E senti que nele pulsava sangue e havia quentura, movimento, pulsação.
   Faz um mês que eu, Regina e a nossa companhia de teatro representamos essa peça. É de um autor russo. Será que é russo mesmo? Não sei, eu é que costumo associar nomes difíceis à literatos russos. Talvez seja húngaro. A peça conta a história de uma rainha que, ao final, é morta pelo seu amante. No caso, eu faço o amante. A última cena é catártica. Estou sempre atrás da catarse, da explosão. Mas tenho medo. Tenho medo de não resistir. Tenho um medo enorme de sucumbir à explosão. Mas as coisas em- mim e eu dentro das coisas. Às vezes, a explosão é necessária, vital.
   E deixa marcas impossíveis de serem apagadas. Parece que minhas mãos involuntariamente esculpem o pescoço rijo de Regina. E minhas duas mãos dançando sobre ele, insignes e fortes. E ao fim da dança, eles afundaram. E pressionaram os músculos de Regina, aquela atriz tão talentosa e tão bela. Meus dedos envolveram o pescoço de Regina e eu parecia tocar o cânhamo central, as cordas, as veias, o sangue pastoso. Eu fazia a carne chocar-se com a carne obstruindo todos os espaços por que o ar passaria. Os dez dedos ágeis ficaram mais espaçados e distantes. Pude embrenhá-los na pele grossa e deixei seu pescoço mais fino e delgado. A pele tornou-se elástica e empalideceu-se completamente.
   E havia uma realidade tão pulsante que, nesse momento, creio que a pletéia voltou-se para ver o fechamento dramático. Mal sabiam eles até que ponto a realidade se aproximava da ficção; até que ponto eu era o amante enredado e ela, a rainha adúltera? Até que ponto eu era um meramente ator e ela uma atriz? Não sei novamente. As cortinas se fecharam e ouvi o som abafado das palmas efusivas e doídas. Regina tinha os olhos vítreos mas não me acusava. Seus olhos tampouco pareciam pedir socorro. Eles imprimiam certa comiseração, certa pena, certa compaixão. E isto me enfurecia ainda mais, e eu agia com ainda mais virulência, o olhar transparente. Ah...
   Deitei o corpo de Regina no chão e vim para o camarim. Andei sem pressa, apesar da respiraçao curta e cansada. Fico assim em algumas noites e é absolutamente normal. O público, imagino, deve ter saído espantado e encantado com um espetáculo verossímil como o foi nesta noite. Todos sozinhos na noite fria e macilenta. Largados na névoa recortada pelas luzes aniquilantes.
   Tenho vontade de gritar. Tenho também um ímpeto de voltar até a cochia e espiar o corpo de Regina, prostrado. Ela, vestida naquela manta cor de malva, elegante e refinada como uma personagem de rainha lhe exigia. Os lábios exíguos. As sombrancelhas grossas. Estou agora epifânico e glorioso. Devo agora ir embora, deitar-me, tomar alguma coisa e sonhar os mesmos sonhos de sempre. Os labirintos. Amanhã, não teremos espetáculos, meu Deus, e os ingressos já comprados? A arrecadação da peça não anda boa e também precisamos de uma substituta à altura para Regina. E mesmo que me venha uma nova atriz, ao olhá-la, lembrarei-me da revestidura frágil de vidro dos olhos de Regina. E minhas mãos novamente adquirirão o formato perfeito do pescoço, como um escultor que prepara com desvelo mais uma estátua ebúrnea e gelada.



Marcos Vinícius Ferrari

08.06.07

Maria Sorriso parte I

   Devido ao carniça do Terra que limitou os caracteres, o texto está dividido em duas partes. Ele começa aqui e termina no post abaixo.  ;)

 


   Quando cheguei à cidade de Boa Esperança e perguntei por Maria Sorriso, não obtive resultados de pronto. Era eu um jornalista que me formara havia pouco e ainda guardava qualquer coisa de insegurança e paixão. Não à toa fui o escolhido dentre uma dezena de outros jornalistas da redação para pesquisar sobre a vida e o mistério que envolvia Maria Sorriso. Mas digo que, ao cheguar àquela cidade fumegada pelo lábio seco do Sol e embalada pelas cantigas das negras prostradas nas varandas, não via possibilidade de êxito. Não havia resquícios da morte de Maria, que talvez tivesse escapado por entre o falar das gentes. Foi só lentamente que eu descobri coisas a respeito dela – primeiro, a casa em que vivia, depois as roupas, depois o endereço de um neto e por fim, o lugar em que foi enterrada vestida naquela túnica azul, esmaecida e coberta por flores pálidas e murchas. “Quando a tampa escura do caixão tampou o estojo, ela ainda sorria”, garantiu-me o neto.
   Maria, segundo a certidão de nascimento borrada que encontrei em meio à suas coisas, nascera numa cidadezinha pequena do Maranhão. Viera para São Paulo ainda jovem. E segundo a certidão de óbito, ainda fresca nos registros municipais, ela morrera numa tarde turva e mole de abril. A causa mortis, entretanto, era dada como desconhecida. Dobrei a certidão em quatro e coloquei-a no bolso ao sair do cartório sem ser percebido. Foi a partir daquele ponto confuso e intrigante que iniciei minha investigação a respeito de Maria Sorriso. Em seis meses, entrevistei cerca de quarenta pessoas, habitantes ou não de Boa Esperança. Tudo ficou registrado em meu gravador e em cerca de dezesseis fitas que, transcritas, equivaleram a seis cadernos escolares cheios. Ainda somo a este material recortes de matérias ou notas em jornais da região, tendo encontrado uma pequena e invisível nota de rodapé sobre Maria num jornal do Rio de Janeiro. Quando tinha já completas as entrevistas e as buscas, fui encontrar-me com dois médicos especialistas de São Paulo e fiz-lhe perguntas a respeito das possibilidades da verdadeira razão do óbito de Maria, encoberto por nuvens de ceticiscmo e folclore, fosse verossímil. Assumo que ter conhecido a vida Maria assemelhou-se a uma avalanche em mim-mesmo de modo que me encontrei diferente daquele jornalista pueril cheirando a sândalo do começo quando enfim publiquei “A história de Maria Sorriso”, que alcançou inacreditável sucesso de vendas e editoração. Vou lhes contar, em linhas gerais, a história de Maria ou Maria Sorriso.
   Ela morava numa rua estreita às margens do córrego do Cabrito, ponto limítrofe entre Boa Esperança e a cidade vizinha, Santa Isabel das Águas. A casa de Maria era pequena e de taipa de pilão. Apenas dois cômodos: num ficava o seu quarto composto por uma cama de madeira sobre a qual estava colocado um colchão fino, velho e cheirando à umidade e a fezes de rato. Ratos, baratas e toda sorte de insetos costumavam invadir a casa de Maria, talvez em busca de um lugar que fosse minimamente melhor que o esgoto. As paredes eram infiltradas, tomadas por rachaduras e cortadas por fios escuros que se estendiam do teto até o chão. Noutro cômodo, ficavam a cozinha – uma geladeira advinda da doação de uma patroa, uma mesa de pernas tortas e um fogão de quatro bocas em que apenas uma delas funcionava – e a sala – um sofá com cor-de-vinho com duas grandes fendas nas extremidades, uma televisão que captava apenas duas emissoras e uma prateleira de madeira sobre a qual estava aberta uma Bíblia no salmo 91. As folhas da Bíblia amarelecidas pelo tempo. Eu lhe mostrarei a salvação, diziam os versos escritos em letra miúda. Maria Sorriso gostava de lê-los repetidas vezes tornando-se assim a única coisa que lia, mesmo sem ser religiosa.
   Maria enviuvara cedo, logo após nove anos de casamento. Seu marido, Odílio da Conceição, saira certa vez para comprar cigarros e nunca mais voltou. Maria cuidou então dos quatro filhos do casal. Naquele tempo, surgiram especulações sobre o paradeiro de Odílio. O mais aceitável era o de que ele arranjara uma amante e estavam vivendo numa pensão próxima ao porto, local em que uma das vizinha havia visto – mesmo que de longe – Odílio. Maria sofrera de início, mas não chorara. Teve de começar a trabalhar para sustentar Odílio Júnior, Jorge, Pedro Henrique e Francisco. Durante vinte e um anos foi doméstica. A cara negra de Maria respingava e aquecia-se cheia de gotas de suor enquanto trabalhava arduamente afundando os braços fortes e cor de azeviche nos vasos sanitários. Lustrava os móveis, esfregava com volúpia e cadência as roupas sujas da patroa no tanque – descartando a máquina de lavar por certo orgulho e obsolecência –, cozinhava, passava as roupas com o ferro de passar pesado e fumegante. Entrava às sete e, geralmente não tinha horário fixo para sair. Sua patroa, a dentista Marta gostava de Maria, que segundo ela, era prestimosa, habilidosa e “tinha sempre o sorriso no rosto”. O sorriso. 

(...)
  

Maria Sorriso parte II

(...)

Maria Sorriso morava muito longe da casa de Marta. Por isso, acordava às três e meia da manhã e saia de casa às quatro e quinze para tomar um ônibus, um trem e um ônibus. O trem recamado de lata acinzentada e achatada seguia lento e cheio de pessoas que se chocavam entre si. Maria não sabia o que era conforto e, durante a viagem, os homens de barba ruiva lhe roçavam o sexo sem o mínimo de dignidade. Maria se incomodava, mas calava-se como se mastigasse vidro moído. Nada afetava Maria. Nem o salário irrisório. Nem a fome. Nem as humilhações. Nem as palavras maldosas que os garotos de Boa Esperança lhe dirigiam, fosse pela sua cor, fosse pela sua idade, fosse pelas suas roupas velhas e esdrúxulas.
Maria trabalhava seis dias por semana e encontrava no domingo certo refúgio sacro. Nesses dias, acordava cedo, lavava suas roupas, as roupas de seus filhos, e dos filhos de seus filhos. Então, cozinhava para seus filhos e para os filhos de seus filhos. Enquanto estes comiam como bárbaros reclamando pela demora – “o fogão só tem uma boca e eu só tenho duas mãos”, ela dizia tranqüila, sorrindo -, Maria sentava-se no sofá e, totalmente absorta, pintava as unhas desgastadas da mão de vermelho. Passava também um batom da mesma cor na boca carnuda e árida. Ela tinha ainda outros pequenos prazeres: enfiar o dedo no copo de leite morno e depois lambê-lo como se fosse a última gota do mais precioso líquido do mundo; passar o grosso dedo anelar sobre o sal grosso das peças de bacalhau expostas nos supermercados e cobertas por aquela fina teia branca cheia de pequenos furos; olhar-se no enorme espelho do banheiro de Marta e encarar ela mesma por longos minutos como se quisesse decifrar levemente a mulher do outro lado, igualmente feia, igualmente pobre, igualmente indefinida.
Maria Sorriso nunca soube o que era descanso, além das cinco horas em que dormia. Dormia mal, tinha sonhos belos tingidos de cores claras. Havia sempre uma relva dourada, havia coelhos, havia galinhas, e ela sorrindo. Maria sorria por tudo, de tudo, para tudo. Sua vida medíocre como a vida da galinha do sonho não era para ela motivo de choro ou remorso. Tampouco estava preparada para lançar-se no grande abismo da existência e conhecer a si mesma. Ela já se conhecia, Maria Sorriso, prazer, ela dizia ao se apresentar para algum desconhecido. Ela se julgava feliz por nunca ter conhecido a verdadeira felicidade. Gostava de ver seus netos, todos muito pequenos, que desde cedo demonstravam não gostar da avó. Tinha amor pelos filhos que lhe emprestavam a contra-gosto um certo respeito mascarado pela vergonha. Tinha uma cadela vira-lata, Lalá, de pelo escasso e escuro. A pobre coçava-se o dia todo com a pata cansada, o olhar triste. Até ela devia sentir comiseração por Maria e, vez ou outra, sentava no seu colo para lhe fazer compania. Maria sorria.
Mas houve um fato que mudou definitivamente o curso da história de Maria tirando-lhe da oscuridade que lhe conferia a pobreza e a miséria e jogando-lhe para o alto da glória humana. Certa vez, Maria foi até à mercearia mais próxima, que distava três quilômetros de sua casa. Sentado à porta, estava Joãozinho Beija-Flor, famoso mendigo da região. Sua testa brilhava iluminada pelo sol quente como só ele sabe ser nos lugares mais pobres. Maria agachou-se cordial e cumprimentou Joãozinho. Segundo testemunhas, os dois conversaram por alguns dois minutos. Foi quando Maria tombou para trás batendo-se contra o concreto duro da calçada quente. Joãozinho começou a rir, provavelmente do que ele mesmo havia dito. Talvez uma piada? Uma anedota? Maria abriu as pernas e lançou-as para cima. Sua garganta abriu-se e se expôs num grito gutural. Rolou-se no chão, sujando sua roupa encardida pelo uso. Os braços elétricos. Os olhos abriam e fechavam como os de criança vindo ao mundo e se deparando com um banquete de luzes e vozes. Enquanto Maria rolava no chão como um animal regozijando depois de comer, uma onda vermelha rasgou o céu azul. O Sol tornou-se, enfim, o céu, as casas, as pessoas e a terra inteira.
Sentiu-se um esturpor quente e todos tremiam como se fossem feitos de borracha. Maria enfim riu. E sua risada foi tão larga, tão sincera, tão fastuosa, tão. Tudo foi tão forte como uma tempestade e Maria não aguentou. Ao fim de três minutos initerruptos de tremor, ela morreu. Para aquele ser humano aparentemente rijo, a risada foi algo arrebatador por demais. Foi um mergulho profundo e ousado na água turva de sua própria existência. Maria morreu de rir. Maria morreu de se rir? Morreu. E, depois, a cidade inteira passou sorrindo ao lado do corpo endurecido e gelado.



Marcos Vinícius Ferrari

03.06.07

Admiração

   Agachei-me e espreitei-me pelo jardim úmido e fresco parando vez ou outra para admirar as estátuas ebúrneas e frias. Passava as minhas mãos sobre a superfície lisa das pernas de mármore e as nuanças perfeitas do pano que lhe cobria os ombros e braços largos. Música petrificada. Andava ainda pelo jardim vicejante cabisbaixo. Não encarava o Sol mas o imaginava posto no centro perfeito da imensidão azul, ardendo e se consumindo na própria chama. Meus olhos fixos na fila de formigas trabalhadoras que caminhavam cambaleantes à margem de concreto do verde. O peso da folha sobre o corpo. Soprei com certa superioridade o seu fardo e a formiga me encarou e resmungou com tanta cólera que recoloquei a folha no decurso de sua função natural. São belas as coisas assim naturais, exclamei alcançando a varanda ampla cujo chão se expunha aos raios filtrados de sol.
   Detive-me à porta. Ouvi o ruído da máquina de escrever, o bater ágil e constante daquela Olivetti velha e de articulações rígidas. Uma vez, pedi-lhe para ver aquele aparelho de fazer histórias - tléc tléc tléc tléc – que habitava havia muito o meu imaginário – tléc tléc tléc tléc. Ele enfiou os dedos em meus cabelos, encarapinhados e escuros e sorriu um sorriso marmóreo como o olho inumano da estátua. Ele trouxe-me caixa em que guardava a máquina, relíquia enferrujada e retesada, as teclas. O pó levantou-se e pequenas partículas de nostalgia expandiram-se livres pelo ar, conta a vidraça, contra a luz. Eu toquei as letras com a ponta dos dedos e me assustei com o barulho súbito da Olivetti quando, acidentalmente, recostei meus pulsos com mais força sobre ela. Ela ria de contentamento e pedia que eu datilografasse algo do jeito que ele fazia. Tentei imitar sua posição: o cigarro – imaginário – escorregando no canto esquerdo da boca, uma mão levantada e a outra tamborilando a velha escrivaninha, os dedos endurecidos, o olhar baixo, os pés colados um ao outro, tléc, tléc, tléc, eu datilografando como ele fazia.
   Ele chamava-se Otávio, assim como o imperador romano, ele me dizia. E ainda me informava que uma daquelas estátuas do meio do jardim era uma réplica da estátua de Otávio Augusto da Prima Porta. Augusto, ele reiterava acendendo o charuto, significa enviado de Deus. E apontava para cima com o charuto fedorendo, Deus. Eu me enchia daquele ar sublime de sabedoria de Otávio, o jeito com que ele inflexionava as palavras dando-lhes ou tirando-lhes a ênfase necessária. A voz rouca, tossia longamente também. Encostava-se na janela tingida pelo arrebol e tossia, estremecia-se todo e contorcia-se infantil.
   Otávio foi meu ídolo. Eu nunca disse isso a ele, é claro, ele falava dos ídolos de barro e eu não entendia nada. Otávio era um homem feliz, eu pressupunha. Não tinha esposa, não tinha filhos, tinha um cachorro, Joyce, mas Joyce é nome de mulher, não é?, eu perguntava inocente. Ele tirava os olhos da janela que dava para o jardim de folhagem tépida expondo-se ao vermelho sem pudores, as flores se abrindo. Otávio ia buscar um livro de Joyce e esfregava em minha cara, um dia você vai entendê-lo, ele me dizia. Eu queria ter a idade de Otávio não só para entender James Joyce e batizar assim meu cão, mas queria ser como ele. Culto, erudito, bonito - tinha lá sua beleza, reconheço -, viajado, famoso. Escritor. Tinha doze anos mas queria saltar a adolescência e aqueles floreios todos e chegar à idade dele. Com a sobriedade dele.
   Ele tinha um jeito todo especial de escrever. Por possuir uma memória fraquíssima, costumava andar com um bloco de anotações pequeno e velho no bolso e um caneta grossa, com detalhes dourados e o nome Otávio Coelho. Achava engraçado o Coelho do sobrenome. Ele dizia que, durante o dia todo, tinha surtos criativos e anotava tudo. Uma vez, estava na cozinha preparando um pouco de café e largou tudo o que estava na pia para anotar uma palavra. Amarfanhado, ele disse que aquela palavra veio em sua cabeça, martelando, martelando, a palavra pedia para ser escrita. Ele anotou. O jeito dele enlaçar a caneta era peculiar, único e inimitável. Os dedos tinham qualquer coisa de rigidez prendendo a caneta como se ela quisesse fugir, Otávio Coelho já desgastado pelo uso constante. Contudo, ao escrever, tudo era fluido e leve, a ponta acinzentada da caneta mal encostava no papel que não se continha naquele frêmito de epifania.
   Ele preparava o café na cozinha antes de lhe aparecer a luz da inspiração. Seu jeito de fazer café também era especial. Não usava filtros ou coadores, apenas despejava pó de café numa xícara de água fervente. Cheirava o café e dizia se lembrar de um tempo muito distante em que vivia numa fazenda do interior e aquele cheiro de café! Mas lá, ele me falava, o cheiro era puro, essencial, os grãos vermelhos, vermelhos – adorava repetir adjetivos como que para dar mais destaque. Mas o café que bebia era ruim, uma bebida rala e amarga, amarga como eram os seus livros. A morte. A saudade. O pessimismo diluído em certo sarcasmo como o pó negro diluído na água borbulhante. Otávio era sarcástico e cruel às vezes.
   Durante parte da minha infância, ia todos os dias até a casa de Otávio, geralmente no final da tarde. No começo, eu ia somente até o jardim e escondia-me atrás da maior estátua. Depois, tomei coragem e alcancei a varanda, prostrando-me ali durante três tardes consecutivas. Pude entrar no quarto dia e ele se apresentou, meu nome é Otávio Coelho, sou escritor, e você, quem é? Balbuciei meia dúzia de palavras e desviei o olhar de Otávio para o sofá, do sofá para os bibelôs sobre a mesa, dos bibelôs sobre a mesa para o abajur de luz roxa, do abajur de luz roxa para a máquina de escrever e me fixei nela. Com o tempo, Otávio se acostumou a mim e eu me acostumei a ele e viramos logo amigos. O sarcasmo dele me assustava e o tornava por vezes superficial. Superfície da casca que o cobria. O homem infeliz, o redemoinho que levou a esposa, os filhos, os livros, as lembranças. Numa das últimas vezes que o encontrei (eu tinha 14 anos), vi-o chorando sobre a máquina de escrever. Aproximei-me, peguei em sua mão gelada e perguntei o que havia acontecido. Nunca havia visto Otávio desabar assim, como tijolos caindo da coluna de um edifício. A catarse.
  

   O tléc tléc tléc tléc ainda continuava. Atravessei o corredor apertado e cheguei até a sala. Pude imaginar Otávio sentado, tal qual Inês em sossego, os seus dedos pesando sobre as teclas, a explosão. Mas ele não estava mais lá. O tléc tléc tléc tléc da minha lembrança. A cadeira de encosto almofadado vermelho vazia. O abajur de luz arroxeada, cadê? Joyce havia morrido? Ou fugido? Cão fiel demais para abandonar a casa em que foi criado. A velha Olivetti cansada de guerra ainda estava lá intacta, um pouco empoeirada. Mais velha do que era antes, se é que isso era possívei. Peguei-a, coloquei-a em sua velha caixa de lata com desvelo, pus debaixo do braço e saí. Ao lado da porta, um retrato antigo de Otávio que parecia sorrir para mim disse-me com a voz rouca:
   - Essa máquina é sua! É toda sua!
   Atravessei novamente o jardim de volta e ainda puder ver o Otávio Augusto de mármore piscando seus olhos sem fundo para mim.

 

Marcos Vinicius Ferrari