Casmurro sem teto

"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma" (Fernando Pessoa)

Casmurro sem teto

"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma" (Fernando Pessoa)
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Terra Blog

Arquivo de: Agosto 2007

07.08.07

Noturna Presença I

Devido à porcaria do provedor Terra, o texto "Noturna Presença" está dividido em duas partes. Sim, isso é ridículo. Fica aqui o meu protesto.

 

   Ele se aproximou de mim como se quisesse me pedir algo e havia no seu olhar uma doçura por mim desconhecida, uma candura trapaceira, uma aura angelical. Foi quando, não sei bem como, lancei meu corpo para frente e mergulhei no líquido espesso e verde dos seus olhos vítreos. Estava eu todo imerso na mistura densa borbulhante, quente que estava. Até que senti que uma enorme esfera negra e de parede rija crescia em espasmos rítmicos e ensaiados e expandia-se, avolumava-se silenciosamente. Meus pés cresciam e eu descia ao fundo imantado e gelado, eu parecia senti-lo, tocá-lo qual lâmina espelhada e fria. Fria também ficava a superfície do líquido e da bola negra e lisa que, a alguns centímetros de mim, girava atiçando altas ondas e pela primeira vez molhei a ali meus cabelos. Ergui a mão para retirar partículas que grudavam insistentemente em minha pele. A bola negra andou querendo esmagar-me.
   Acordei do sonho em meio ao grito esfregando minha cara com força. Respirei fundo duas ou três vezes, até recompor-me sentado na cama com as mãos amassando o lençol algodoado azul desbotado. Abri a janela e um vento violento me atingiu e tinha gosto parecido com hortelã. Fazia frio mas durante o dia fizera calor, tanto que eu e Raquel acordamos cedo, transpomos o riacho descalços, escalamos o segundo morro depois da centenária figueira para colhermos laranjas, o pé carregado. Podres!, exclamou Raquel limpando as mãos sujas de terra no vestido verde ornado de flores brancas, estas laranjas estão podres! Não acreditei, arranquei-lhe das mãos a mais polpuda fruta das cinco que ela segurava, passei-a próxima do nariz, apalpei os pólos achatadoos e escurecidos de fungos. Olhamo-nos incrédulos e descemos à casa.
   - Parece que o Tom sumiu de vez – disse ela corendo para os maracujás, cheirosos e fartos. Pegou um sacudiu-o perto do ouvido, dançou ao redor de mim como se fosse a fruta um instrumento musical, balançava-se e levava uma flor na cabeça, a flor do vestido! – Será que ele volta?
   - Acho que sim. Amanhã é domingo, é dia de festa depois da missa. Tia Cora dará um almoço para o padre. Sempre tem bons restos de comida para o Tom, pedaços gostosos de pernil. Ele sabe, ele vem.
   - Gato bem do folgado. Folgado demais, ouviu? – disse jogando o maracujá no chão – Duvido que volte. Deve estar por aí ou então achou um novo dono.
   Calei-me. Retrucar com Raquel era pura ignorância. Ela correu até o avarandado, sentou-se e cruzou as penas. Acho que ainda disse mais algumas palavras que não entendi. Ela nunca gostou do Tom. Dizia que ele era gordo, folgado, que soltava pêlos pela casa como um rastro. Especialmente porque Tom elegia a sua cama como o melhor lugar para dormir, ato quase sacro que realizava durante um terço do dia, esticado, preguiçoso, inconseqüente e vadio. A cama alta de madeira clara, o Olimpo.
   - Lembra-se do que sua mãe dizia? – disse Rachel limpando as unhas cheias de terra com um pedaço de arame que achou.
Balancei os ombros e sentei-me ao lado dela.
   - Ela dizia que um gato nunca morre em casa. Que quanto ele se sente doente, ele foge para morrer longe da casa onde viveu. Por que será?
   Elevei a cabeça levemente como se um trem viesse em minha direção a toda velocidade, as luzes no meu rosto, os olhos escuros de Raquel, a bola escura me espremendo, o líquido! Corri para longe dela, atravessei o riacho, passei pela figueira e entrei em casa. Por que Raquel foi me falar justo aquilo? Bastarda! Falasse do Tom, mas precisava falar da mamãe? Eu poderia voltar lá e dizer que minha mãe pelo menosnunca fora um bêbada e nunca esteve internada numa clínica de recuperação, caída de bêbada depois de se mamar um litro de cachaça, a mão furada por um pedaço de vidro da garrafa, os cabelos emaranhados na cara escura. Eu diria isso aos berros, sua mãe é uma doente!     
   Mas, não, não teria coragem. Sentei-me na cama e acho que dormi a o resto da manhã e a tarde toda só acordando agora depois do sonho.
Eu mergulhava nos olhos de Tom, gato manhoso, de pele rajada e meio escurecida com o tempo. Quando filhotinho, era alvo, quase não tinha as listras carameladas. Cresceu, engordou, os bigodes ficaram mais tesos, as patas mais grossas, os dentes mais afiados. Ele chegou aqui ainda pequenininho, cabia quase todo na palma da minha mão, eu o acarinhava e ele arisco. Quando me mordeu pela primeira vez, atirei-o ao chão, não quero mais esse gato, mãe! gritei com ódio. Mamãe veio da cozinha, olhou-me, sorriu com indolência e voltou.

 

(...)

Noturna Presença II

     (parte II)

 

     Batizei-o Tom por falta de nome melhor, creio eu. Raquel chegou a sugerir um nome que parece-me que era o nome de seu cantor favorito. Nome estrangeiro, ela dizia, nome estrangeiro. Refutei. Mamãe sugeriu um nome estranho que também não acatei. Pus Tom e sempre gostei muito. Era de fácil pronúncia e de fácil identificação. Eu e Rachel, ainda crianças, pegamos uma folha do escritório do tio Alberto, duas canetas e escrevemos uma certidão de nascimento do gato, este é o senhor Tom, Tom? É Antônio, Raquel, mas ele não gosta de ser chamado assim – dizia e levava minhas mãos às orelhas do gato que me olhava com a ironia atravessada e certeira.
   Por que esse senhor não gosta de ser chamado de Antônio?, perguntou ela pegando da pata de Tom e mergulhando na almofada de tinta. Impressão digital, ela dizia. Pressionou a pata contra o quadrado no topo da página, Tom miou de descontentamento. Solta isso, eu disse, que você não sabe lidar com gente e muito menos com gato.
   Por que esse senhor não gosta de ser chamado de Antônio se trata-se do nome dele?, repetiu Raquel levemente irritada, irritava-se fácil quando criança assim como Tom. Não gosta e pronto!, disse e ameacei levar comigo a certidão de nascimento ainda incompleta. Essa desculpa não me convence! Raquel pegou Tom no colo, acarinhou-lhe a cabeça sem muito amor ou afinco e me indagou mais uma vez.
   Não gosta porque. Porque ele não quer que saibam que ele se chama Antônio. Se descobrirem, ele está perdido, perdido! Ninguém pode saber, ouviu? Caso te perguntem se há algum Antônio nesta casa, diga que não há! Há sim um Tom, um gato, que nada tem a ver com o tal Antônio. Raquel riu e largou o gato no chão. Isso me parece furado demais, afirmou desafiando-me. Burra!, bradei assinando meu nome da certidão, burra que nem entende de pseudônimos.
   Havia um prazer secreto em pronunciar palavras estranhas na frente de Raquel que era cheia de se achar superior a mim. Guardei a certidão em algum lugar, ou Clementina jogou fora, aquela negra intrometida mexe nas minhas gavetas, lê minhas cartas, meus papéis, tira meus livros da ordem. Ela maltratava muito o pobre Tom, gato dos infernos! Não fale assim com ele, Clementina!, e olhava para a mulher alta e larga, escura e forte, incômoda e maternal. Ela ria-se sozinha enquanto espanava o pó cantando corimas e partidos da terra dela, a voz grossa, gato dos infernos!
   Depois que mamãe morreu, Tom tornou-se meu único amigo e companheiro. Raquel passou a viver com o pai na cidade e vinha aqui apenas uma ou duas vezes por mês. Sentia saudades dela, confesso. Tom também sentia, eu acho. No fundo, gostava dela, da Clementina, da tia Cora. Eu encarava seus olhos que transbordavam, à noite o núcleo negro crescia e tomava quase o espaço todo. Durante o dia, era apenas um filete imperceptível pela camada vítrea iluminada pelo sol.
   E faz duas semanas que Tom foi-se embora. Não é a primeira fez. Na primeira vez em que ele desapareceu mamãe ainda era viva. Rezamos um terço sob instrução de tia Cora, pedimos a Santo Expedito, ameacei ir de joelhos até a igreja de Nossa Senhora do Paraíso, folheava a bíblia durante a noite, pedia desesperadamente, sem vocativo específico, que Tom voltasse. No quinto dia, ele voltou, a orelha rasgada em carne viva, a pata manca, o olhar que dizia: estou bem mais quero descansar. Não permiti.  Abracei-o, contei-lhe tudo o que sofremos por ele, contei as rezas, as promessas, os mistérios gloriosos, os mistérios gozosos, e expliquei-lhe a indumentária do terço. Ele gostava de ouvir mas pestanejava de sono e canseira.
   Depois, sumiu várias vezes mais e sempre voltou, são e salvo. Mas duas semanas? Não, nunca ocorrera. “Um gato nunca morre em casa”. Tom deve ter se sentido mal e, por algum instinto que desconheço, fugiu para aliviar minha dor. Será? Mas nem se despediu? Nem roçou em minhas pernas como sinal de agradecimento ou amizade? Bastardo! Está onde agora? Esbaforido, numa encruzilhada, com a pele seca pelos raios solares, as feridas solidificadas, o sangue manchando o pêlo de que cuidei tão bem, com tanto desvelo, só Deus sabe.
   Depois de sonhar com ele, enquanto o centro negro do olho se aproximava, ouvi um barulho e acordei de súbito. É ele!, pensei. Não era. Talvez algum cachorro ladino entrou aqui, sempre entram durante a noite. Por isso, Tom sempre dormia ao lado da minha cama. Mantia-o seguro, protegido, resguardado por mais um dia. “Um gato nunca morre em casa”.
    Fiquei ainda na janela a fitar o céu e as poucas estrelas opacas. Não havia Lua. Perdi completamente o sono. Sentia-me ainda impregnado daquele líquido verde que escorria pelos braços, pelas pernas e eu sendo espremido, socorro! O olho! A parede de vidro quase estourando em mil pedaços minúsculos insuspeitados.
    Voltei a me deitar na cama. Olhei para o teto. Para o chão. Para o lugar do Tom. Para a porta entreaberta deixando escapar um fio de luz rósea. Clementina certamente assistia à televisão na sala. Devia cochilar à essa altura. Ouvi outro barulho. Pulei da cama rapidamente e me encostei à janela. Debalde. Certamente, outro cão ou um gato qualquer. A noite tão profunda e tão simples, ausente multipilicando-se, tomando conta de tudo,  inundando-nos de oxigênio líquido e negro, trazendo poeira cósmica e poeira do assoalho barulhento, doze tábuas, eu contava quando criança, atravessava o quarto contanto as placas de madeira.  Nesse escuro milagroso , a silhueta de Tom se perdia como se fosse um fio tecido à enorme manta. Tentava entender como Clementina fazia crochê, acompanhava com o dedo a linha que depois de desdobrava, virava outras e virava uma gola que virava uma manga que virava uma blusa, toma, é para você. Tom tecido no escuro e o hálito de hortelã batendo na minha cara com um leve gosto de licor no fundo da boca.



Marcos Vinícius Ferrari