| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | ||||||
| 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 |
| 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 |
| 16 | 17 | 18 | 19 | 20 | 21 | 22 |
| 23 | 24 | 25 | 26 | 27 | 28 | 29 |
| 30 |
(...)
Maria Sorriso morava muito longe da casa de Marta. Por isso, acordava às três e meia da manhã e saia de casa às quatro e quinze para tomar um ônibus, um trem e um ônibus. O trem recamado de lata acinzentada e achatada seguia lento e cheio de pessoas que se chocavam entre si. Maria não sabia o que era conforto e, durante a viagem, os homens de barba ruiva lhe roçavam o sexo sem o mínimo de dignidade. Maria se incomodava, mas calava-se como se mastigasse vidro moído. Nada afetava Maria. Nem o salário irrisório. Nem a fome. Nem as humilhações. Nem as palavras maldosas que os garotos de Boa Esperança lhe dirigiam, fosse pela sua cor, fosse pela sua idade, fosse pelas suas roupas velhas e esdrúxulas.
Maria trabalhava seis dias por semana e encontrava no domingo certo refúgio sacro. Nesses dias, acordava cedo, lavava suas roupas, as roupas de seus filhos, e dos filhos de seus filhos. Então, cozinhava para seus filhos e para os filhos de seus filhos. Enquanto estes comiam como bárbaros reclamando pela demora – “o fogão só tem uma boca e eu só tenho duas mãos”, ela dizia tranqüila, sorrindo -, Maria sentava-se no sofá e, totalmente absorta, pintava as unhas desgastadas da mão de vermelho. Passava também um batom da mesma cor na boca carnuda e árida. Ela tinha ainda outros pequenos prazeres: enfiar o dedo no copo de leite morno e depois lambê-lo como se fosse a última gota do mais precioso líquido do mundo; passar o grosso dedo anelar sobre o sal grosso das peças de bacalhau expostas nos supermercados e cobertas por aquela fina teia branca cheia de pequenos furos; olhar-se no enorme espelho do banheiro de Marta e encarar ela mesma por longos minutos como se quisesse decifrar levemente a mulher do outro lado, igualmente feia, igualmente pobre, igualmente indefinida.
Maria Sorriso nunca soube o que era descanso, além das cinco horas em que dormia. Dormia mal, tinha sonhos belos tingidos de cores claras. Havia sempre uma relva dourada, havia coelhos, havia galinhas, e ela sorrindo. Maria sorria por tudo, de tudo, para tudo. Sua vida medíocre como a vida da galinha do sonho não era para ela motivo de choro ou remorso. Tampouco estava preparada para lançar-se no grande abismo da existência e conhecer a si mesma. Ela já se conhecia, Maria Sorriso, prazer, ela dizia ao se apresentar para algum desconhecido. Ela se julgava feliz por nunca ter conhecido a verdadeira felicidade. Gostava de ver seus netos, todos muito pequenos, que desde cedo demonstravam não gostar da avó. Tinha amor pelos filhos que lhe emprestavam a contra-gosto um certo respeito mascarado pela vergonha. Tinha uma cadela vira-lata, Lalá, de pelo escasso e escuro. A pobre coçava-se o dia todo com a pata cansada, o olhar triste. Até ela devia sentir comiseração por Maria e, vez ou outra, sentava no seu colo para lhe fazer compania. Maria sorria.
Mas houve um fato que mudou definitivamente o curso da história de Maria tirando-lhe da oscuridade que lhe conferia a pobreza e a miséria e jogando-lhe para o alto da glória humana. Certa vez, Maria foi até à mercearia mais próxima, que distava três quilômetros de sua casa. Sentado à porta, estava Joãozinho Beija-Flor, famoso mendigo da região. Sua testa brilhava iluminada pelo sol quente como só ele sabe ser nos lugares mais pobres. Maria agachou-se cordial e cumprimentou Joãozinho. Segundo testemunhas, os dois conversaram por alguns dois minutos. Foi quando Maria tombou para trás batendo-se contra o concreto duro da calçada quente. Joãozinho começou a rir, provavelmente do que ele mesmo havia dito. Talvez uma piada? Uma anedota? Maria abriu as pernas e lançou-as para cima. Sua garganta abriu-se e se expôs num grito gutural. Rolou-se no chão, sujando sua roupa encardida pelo uso. Os braços elétricos. Os olhos abriam e fechavam como os de criança vindo ao mundo e se deparando com um banquete de luzes e vozes. Enquanto Maria rolava no chão como um animal regozijando depois de comer, uma onda vermelha rasgou o céu azul. O Sol tornou-se, enfim, o céu, as casas, as pessoas e a terra inteira.
Sentiu-se um esturpor quente e todos tremiam como se fossem feitos de borracha. Maria enfim riu. E sua risada foi tão larga, tão sincera, tão fastuosa, tão. Tudo foi tão forte como uma tempestade e Maria não aguentou. Ao fim de três minutos initerruptos de tremor, ela morreu. Para aquele ser humano aparentemente rijo, a risada foi algo arrebatador por demais. Foi um mergulho profundo e ousado na água turva de sua própria existência. Maria morreu de rir. Maria morreu de se rir? Morreu. E, depois, a cidade inteira passou sorrindo ao lado do corpo endurecido e gelado.
Marcos Vinícius Ferrari

criado por Casmurro sem teto
00:40:23 Agachei-me e espreitei-me pelo jardim úmido e fresco parando vez ou outra para admirar as estátuas ebúrneas e frias. Passava as minhas mãos sobre a superfície lisa das pernas de mármore e as nuanças perfeitas do pano que lhe cobria os ombros e braços largos. Música petrificada. Andava ainda pelo jardim vicejante cabisbaixo. Não encarava o Sol mas o imaginava posto no centro perfeito da imensidão azul, ardendo e se consumindo na própria chama. Meus olhos fixos na fila de formigas trabalhadoras que caminhavam cambaleantes à margem de concreto do verde. O peso da folha sobre o corpo. Soprei com certa superioridade o seu fardo e a formiga me encarou e resmungou com tanta cólera que recoloquei a folha no decurso de sua função natural. São belas as coisas assim naturais, exclamei alcançando a varanda ampla cujo chão se expunha aos raios filtrados de sol.
Detive-me à porta. Ouvi o ruído da máquina de escrever, o bater ágil e constante daquela Olivetti velha e de articulações rígidas. Uma vez, pedi-lhe para ver aquele aparelho de fazer histórias - tléc tléc tléc tléc – que habitava havia muito o meu imaginário – tléc tléc tléc tléc. Ele enfiou os dedos em meus cabelos, encarapinhados e escuros e sorriu um sorriso marmóreo como o olho inumano da estátua. Ele trouxe-me caixa em que guardava a máquina, relíquia enferrujada e retesada, as teclas. O pó levantou-se e pequenas partículas de nostalgia expandiram-se livres pelo ar, conta a vidraça, contra a luz. Eu toquei as letras com a ponta dos dedos e me assustei com o barulho súbito da Olivetti quando, acidentalmente, recostei meus pulsos com mais força sobre ela. Ela ria de contentamento e pedia que eu datilografasse algo do jeito que ele fazia. Tentei imitar sua posição: o cigarro – imaginário – escorregando no canto esquerdo da boca, uma mão levantada e a outra tamborilando a velha escrivaninha, os dedos endurecidos, o olhar baixo, os pés colados um ao outro, tléc, tléc, tléc, eu datilografando como ele fazia.
Ele chamava-se Otávio, assim como o imperador romano, ele me dizia. E ainda me informava que uma daquelas estátuas do meio do jardim era uma réplica da estátua de Otávio Augusto da Prima Porta. Augusto, ele reiterava acendendo o charuto, significa enviado de Deus. E apontava para cima com o charuto fedorendo, Deus. Eu me enchia daquele ar sublime de sabedoria de Otávio, o jeito com que ele inflexionava as palavras dando-lhes ou tirando-lhes a ênfase necessária. A voz rouca, tossia longamente também. Encostava-se na janela tingida pelo arrebol e tossia, estremecia-se todo e contorcia-se infantil.
Otávio foi meu ídolo. Eu nunca disse isso a ele, é claro, ele falava dos ídolos de barro e eu não entendia nada. Otávio era um homem feliz, eu pressupunha. Não tinha esposa, não tinha filhos, tinha um cachorro, Joyce, mas Joyce é nome de mulher, não é?, eu perguntava inocente. Ele tirava os olhos da janela que dava para o jardim de folhagem tépida expondo-se ao vermelho sem pudores, as flores se abrindo. Otávio ia buscar um livro de Joyce e esfregava em minha cara, um dia você vai entendê-lo, ele me dizia. Eu queria ter a idade de Otávio não só para entender James Joyce e batizar assim meu cão, mas queria ser como ele. Culto, erudito, bonito - tinha lá sua beleza, reconheço -, viajado, famoso. Escritor. Tinha doze anos mas queria saltar a adolescência e aqueles floreios todos e chegar à idade dele. Com a sobriedade dele.
Ele tinha um jeito todo especial de escrever. Por possuir uma memória fraquíssima, costumava andar com um bloco de anotações pequeno e velho no bolso e um caneta grossa, com detalhes dourados e o nome Otávio Coelho. Achava engraçado o Coelho do sobrenome. Ele dizia que, durante o dia todo, tinha surtos criativos e anotava tudo. Uma vez, estava na cozinha preparando um pouco de café e largou tudo o que estava na pia para anotar uma palavra. Amarfanhado, ele disse que aquela palavra veio em sua cabeça, martelando, martelando, a palavra pedia para ser escrita. Ele anotou. O jeito dele enlaçar a caneta era peculiar, único e inimitável. Os dedos tinham qualquer coisa de rigidez prendendo a caneta como se ela quisesse fugir, Otávio Coelho já desgastado pelo uso constante. Contudo, ao escrever, tudo era fluido e leve, a ponta acinzentada da caneta mal encostava no papel que não se continha naquele frêmito de epifania.
Ele preparava o café na cozinha antes de lhe aparecer a luz da inspiração. Seu jeito de fazer café também era especial. Não usava filtros ou coadores, apenas despejava pó de café numa xícara de água fervente. Cheirava o café e dizia se lembrar de um tempo muito distante em que vivia numa fazenda do interior e aquele cheiro de café! Mas lá, ele me falava, o cheiro era puro, essencial, os grãos vermelhos, vermelhos – adorava repetir adjetivos como que para dar mais destaque. Mas o café que bebia era ruim, uma bebida rala e amarga, amarga como eram os seus livros. A morte. A saudade. O pessimismo diluído em certo sarcasmo como o pó negro diluído na água borbulhante. Otávio era sarcástico e cruel às vezes.
Durante parte da minha infância, ia todos os dias até a casa de Otávio, geralmente no final da tarde. No começo, eu ia somente até o jardim e escondia-me atrás da maior estátua. Depois, tomei coragem e alcancei a varanda, prostrando-me ali durante três tardes consecutivas. Pude entrar no quarto dia e ele se apresentou, meu nome é Otávio Coelho, sou escritor, e você, quem é? Balbuciei meia dúzia de palavras e desviei o olhar de Otávio para o sofá, do sofá para os bibelôs sobre a mesa, dos bibelôs sobre a mesa para o abajur de luz roxa, do abajur de luz roxa para a máquina de escrever e me fixei nela. Com o tempo, Otávio se acostumou a mim e eu me acostumei a ele e viramos logo amigos. O sarcasmo dele me assustava e o tornava por vezes superficial. Superfície da casca que o cobria. O homem infeliz, o redemoinho que levou a esposa, os filhos, os livros, as lembranças. Numa das últimas vezes que o encontrei (eu tinha 14 anos), vi-o chorando sobre a máquina de escrever. Aproximei-me, peguei em sua mão gelada e perguntei o que havia acontecido. Nunca havia visto Otávio desabar assim, como tijolos caindo da coluna de um edifício. A catarse.
O tléc tléc tléc tléc ainda continuava. Atravessei o corredor apertado e cheguei até a sala. Pude imaginar Otávio sentado, tal qual Inês em sossego, os seus dedos pesando sobre as teclas, a explosão. Mas ele não estava mais lá. O tléc tléc tléc tléc da minha lembrança. A cadeira de encosto almofadado vermelho vazia. O abajur de luz arroxeada, cadê? Joyce havia morrido? Ou fugido? Cão fiel demais para abandonar a casa em que foi criado. A velha Olivetti cansada de guerra ainda estava lá intacta, um pouco empoeirada. Mais velha do que era antes, se é que isso era possívei. Peguei-a, coloquei-a em sua velha caixa de lata com desvelo, pus debaixo do braço e saí. Ao lado da porta, um retrato antigo de Otávio que parecia sorrir para mim disse-me com a voz rouca:
- Essa máquina é sua! É toda sua!
Atravessei novamente o jardim de volta e ainda puder ver o Otávio Augusto de mármore piscando seus olhos sem fundo para mim.
Marcos Vinicius Ferrari

criado por Casmurro sem teto
17:34:49 - Laura!!
Ouvi uma voz aguda e baixa e senti uma mão fina e quente enlaçar meu braço nu. Meus reflexos não me permitiram pensar antes de virar para verificar de onde saira a voz. Apenas rodopiei de sobressalto, aquela mão estranha ainda me tocando. Vi Olívia.
- Sente-se comigo, Laura! – disse exultante e os olhos pareciam duas bolas vermelhas de Natal, faltava uma semana para comemorarmos o nascimento do menino Jesus lá naquela manjedoura estreira de palha dourada e fresca. Olívia parecia uma criança cansada, a alça do vestido caindo preguiçosamente sobre os ombros descortinando-lhe o colo largo e honesto. Os brincos reluziam com um estalar verde folhudo e doce. Suas mãos brilhavam como se lhe tivessem peneirado ouro por cima. Seus cabelos ainda guardavam o ruivo invejado pelas garotas da época, mesclado pelos fios brancos que ousavam saltar dando-lhe uma aparência que, não sendo boa, não era má. Olívia estava velha.
Não esperava encontrá-la ali naquele restaurante uma semana antes do Natal. Na verdade, nem queria encontrá-la. Havia quatro anos eu a evitava sistematicamente. Inventava compromissos, falava inverdades mas não me sentia mal. Conhecia Olívia havia 35 anos e sempre fomos a melhor amiga uma da outra. Desde os tempos de colégio onde aprendi pouco e ela menos ainda. Éramos alunas aplicadíssimas mas o conhecimento que se ensina com giz-e-lousa se perde facilmente. E ele se perdeu em Olívia ainda mais.
Começamos a conversar por acaso num dos corredores da escola. Eu era uma garota estranha, eu me achava assim. Olívia tinha porte mas eu não a invejava, apenas a admirava. E assim nossa amizade cresceu de tal maneira que em dois anos dividíamos as mais secretas intimidades. Sempre quis ter uma grande amiga e vi em Olívia esse potencial. Durante minha faculdade de Sociologia, durante a minha prisão, durante o meu exílio, durante os partos, durante as agonias. Ela sempre esteve disposta a ajudar, a mão fina, que eu não reconhecera, apertando a minha, força, força. É uma menina, ela sussurrou sorridente no meu ouvido, é uma menina. E a sua voz baixa foi quebrada pelo choro de Alice, miúda, úmida e quente.
- Nunca pensei te encontrar justo hoje e justo nesse restaurante! Que agradável coincidência, ela disse. Eu sorri disfarçando certa condescendência, eu também acho uma coincidência maravilhosa – disse e inflexionei a última palavra como nos tempos antigos.
Olívia era uma pessoa agradável, de senso de humor arguto e afável, muito afável. Até Alice nascer, tínhamos conversas longas e prazentosas, um delicioso companheirismo e um maná infindo de afinidades. Depois, fomos nos afastando cada vez mais. Ela ainda me telefonava para contar-me fatos que haviam lhe ocorrido, mortes, tragédias, casos da redação do jornal, lia-me artigos inteiros pelo telefone. Nesses telefonemas, que eram extensos, havia espaços de áspero e palpitante silêncio. Ficávamos, o telefone colado à cara, sem falar pois não havia assunto.
- O que fará nesse Natal?, perguntou me Olívia levantando pela sétima vez a alça teimosa do vestido e observado se alguém a via fazer tal gesto. Abanava-se com o cardápio cheio de preços e pratos que me distraíam, eu lendo os pratos e suas composições e Olívia inquieta com o calor.
Talvez meu silêncio aturdiu Olívia que começou a mastigar a comida com o vagar incômodo da criança que espera a vida toda pelo presente de Natal que nunca chega. Comecei a devorar meu prato e decidi encontrar algum assunto para colocar em pauta, ela dizia assim, colocar em pauta. Jargão de jornalista, ela dizia rindo-se, jornalista premiada. Fui vê-la receber aquele prêmio, ela estava vermelha e transpirava nervosamente. Antes de subir para receber a pequena estatueta de bronze talhado sem cuidados especiais, ela queria me ver. Chamaram-me até a cochia, ela queria me abraçar, que eu lhe dava sorte. Você me dá sorte na vida, ela repetiu baixinho, aquelas mãos brancas.
Isso foi há dez anos e, dali em diante fomos e não fomos mais as mesmas. Ainda admirava Olívia, gostava dela, era sua amiga como nos velhos tempos. Mas sua presença me exauria, seus telefonemas me eram enfadonhos, seus assuntos me eram indiferentes. Mas eu era amiga de Olívia? era, eu repeti para mim mesma ao ver a foto em que estávamos juntas na neve crocante de Bariloche, eu era amiga de Olívia, sim.
Ali na mesa redonda do restaurante, agíamos como duas mulheres que se desconheciam há 35 anos. Eu queria pôr algo em pauta, o que, meu Deus? Falar-lhe de livros? Falar-lhe que viajaria para Londres no próximo ano? Não, já havia lhe falado disto no último telefonema. Falar-lhe de política? Não achava graça, ela estava muito mais dentro do assunto do que eu. Falar-lhe de poesia, do calor, dos filhos, da poluição dos rios, das horas que andam passando mais rápido. Nossos assuntos se esgotaram, eu olhando Olívia tão sóbria e simpática, o sorriso branquíssimo. Eu me sentia como se me afogasse numa lagoa de água anuviada como meu coração e Olívia me estendesse sua mão, a mão que eu nem mesmo reconhecera. O toque suave. Eu me afogava, minha boca se enchia daquela água barrenta, meu nariz. Mas eu me afundava plena na consciência de que a mão de Olívia estaria ali, parada como a duma estátua, rija como a duma estátua.
Fui-me embora do restaurante após abraçar longamente Olívia e prometer ligar-lhe assim que pudesse. Salientei que levaria algum tempo; mas que telefonaria. Peguei minha bolsa e fui caminhando rumo à porta de vidro que me permitiu ver a cidade em vermelho e em negro. Uma fileira de tochas acesas estendia-se pela rua escura e pequenas chamas líquidas decoravam os edifícios que riscavam com grafite o céu. Entrei num táxi tal como chegara. E no conforto do banco de couro macio, fui pensando em Olívia com imensurável carinho. Olívia era minha melhor amiga. Não tínhamos assunto, não tínhamos tempo, não tínhamos idade. Mas amizade era para mim algo transcedental. Amizade, eu repeti comigo após o baque do táxi freando, é coisa de telepatia. De longe, nós sentimos uma à outra. No escuro abissal de nossas lembranças, nos queremos bem uma à outra. Essas coisas lindas, essas coisas ficarão, disse o poeta! exclamei para o taxista que abanou a cabeça com descrença me avisando que, enfim, havíamos chegado.
Marcos Vinícius Ferrari

criado por Casmurro sem teto
00:04:18 Tudo era silêncio quando ele chegou. Sentou-se próximo de mim, obersvou-me com certa curiosidade. Era um final de tarde, a neblina quente e úmida já estava baixa e era tangível. O final da tarde, para mim, é o momento mais melancólico do dia, o mormaço veloz, o Sol enleado com o horizonte sereno esgalhando-se em fios dourados que nas extremidade de afogueiam, se arroxeiam também. O rebojo das nuvens era pouco visível: o céu era uma vasta paisagem homogênea e esbranquiçada. O chão estava molhado, as plantas por isto pareciam felizes, lânguidas, moles, radiosas.
Eu estava sentado num banco de pedra defronte dele, enjeirido de frio. Eu lia Clarice Lispector, Felicidade Clandestina, os contos. Palavras-faca, eu ali imóvel, o clube se esvaziando, o que eu fazia ali mesmo? Eu precisava saber que horas eram, desejava saber as razões de estar ali naquela tarde tão quente-fria. Mas não podia; não conseguia me desvirtuar de Clarice, palavra concatenando palavra e eu sem poder respirar. O trapézio! O livro fino parecia grudado, atado às minhas mãos, intrínseco a mim – e parecia que a minha vida toda eu estive junto do livro, naquele momento ele me era essencial. O que eu estava fazendo ali?
Mas ele continuava me olhando, agora com certa estranheza. Devia me ver tão atento, tão fixo e achar estranho. Voltei meus olhos para o livro mas, de esguelha, pude ver que ele se levantou de onde estava, ergueu os braços como se se espreguiçasse e caminhou na minha direção. Mas parou a uns três metros de mim, eu acho que já o conhecia. Devia tê-lo visto algumas vezes pelos corredores do clube, de relance. Tinha a cara estranha, os olhos gordos, a pele clara, os cabelos vastos e escuros. Era ele todo estranho. Não pude mais me concentrar em Clarice, a magia havia sido quebrada. A força irresistível de atração àquelas páginas perfumadas, àquelas palavras unidas, pares, escurecidas. Uma gota de água caiu bem em cima da página aberta do livro, droga! Uma mancha imensa se fez na página límpida.
- Droga!, gritei, verificando que começara a chover. Percebi que ele vira a minha irritação e começou a me fitar com certo encantamento. Mas talvez olhasse fixamente para o livro que repousava fechado sobre minhas mãos unidas em forma de concha.
- Com licença, qual é o nome do livro? – ele me perguntou. Imaginei o esforço e a dificuldade de me abordar livrando a timidez e a vergonha. Mas a voz não saiu epifânica e sim baixa e macia.
- Felicidade Clandestina – disse de prontidão como se estivesse esperando por aquela pergunta desde a eternidade.
- De...quem? – a voz saiu quase chorosa.
- Clarice. Clarice Lispector. Uma grande escritora.
Ele mexeu a cabeça concordando. Os olhos estavam lacrimejantes, mas não queriam dizer que estavam chorando – como a garota Ofélia de um dos contos. Fiz logo esta associação e encarei-o com certa piedade. Sempre detestei sentir pena dos outros, mas naquele momento senti isso pulsar, com força e dor. Os olhos infantis presos no livro que eu, egoísta, segurava contra o peito protegendo-o da garoa fina e renitente. As plantas ainda mais felizes lançando num sorriso vegetal o sorvedouro da água cheirando a poeira. Senti-me como a garota da história que evitava que a outra entrasse em contato com outro livro. E ele era a garota obstinada, os olhos acesos pegando fogo, as noites em claro pensando num único livro – sua salvação. Ou eu o era?
- Você quer ler? – eu indaguei, apontando para o livro apertado contra a lã seca da minha blusa.
Inicialmente, achei a pergunta por demais descabida. Não emprestaria o livro para um quase-estranho mas poderia deixá-lo ler ali um conto, um trecho, uma passagem. Ele estava já na minha frente e, com muita descrição, exigia-me o livro, dê-me o que me prometera, ele parecia balbuciar com a boca fechada e sigilosa. Ele parecia clandestinamente feliz e eu ainda mais por dar-lhe uma centelha de literatura e beleza. Fico feliz em compartilhar essas coisas tão ínfimas para alguns, tão insigne para outros. Eu estava dando-lhe o mundo.
- Que conto...que conto você me sugere? – perguntou desfiando um sorriso sincero.
Disse-lhe que lesse qualquer um, abra aí e leia, eu falei. Ele sentou-se ao meu lado no banco de pedra cinza molhado um pouco encabulado. Mas o constrangimento passava nos instantes em que seus dedos desfranziam as páginas rijas. Talvez ele nunca tivesse pego um livro, sentido as nuanças e, por dois ou três minutos, crido que o leria, o desvendaria e o aplacaria em sua fúria natural. Ou não.
Ele abriu em um conto e preferi não olhar para não o envergonhar mais. Voltei a olhar para as plantas que ficavam, não sei o porquê, mais verdes. O céu escurecia lentamente e lembrei-me de que eu já devia estar em casa. Havia um zilhão de coisas a serem feitas e eu ali, estático, observando pela primeira vez as plantas e vendo nelas certa humanidade. As flores. Peguei uma delas, a mais colorida de todas. Ela tinha cor, tinha porte, era bela. O ser humano é tão feio, eu disse-lhe em voz baixa e ela murchou num suspiro de confirmação e tristeza. Eu ainda tentei ressuscitá-la, a beleza está em você, está em suas irmãs-flores, está nos livros. Está na literatura.
Havia novamente o silêncio do mundo enquanto ele lia o conto. Calculei que ele já deveria estar terminando-o, mas estava impassível, imperturbável. Senti-me incomodado e feliz. Imaginei que, naquele dado momento, dentro dele abriu-se uma torneira gigante despejando em suas veias e vasos um líquido espesso. Como uma catarata veloz e pesada. E ele seria todo percorrido, todo lavado em literatura. Há gente demais sedenta dela. Há mistérios demais e respostas de menos.
Dali a dois minutos, ele enfim terminou de ler e uma lágrima escorreu dos seus olhos respingando sobre o livro. A garoa já havia cessado. Ele, antes de mais nada, apressou-se em pedir desculpas por ter molhado o livro, borrado a tinta escura. Ele não pedia perdão pela lágrima mas por ter borrado meu livro! Ele não se sentia envergonhado por encontrar em Clarice Lispector alguma espécie de resposta ou de conforto ou ainda de tensão. Ele não se envergonhava mais de ter encontrado a beleza do mundo que eu, humildemente, havia lhe apresentado
Marcos Vinícius Ferrari

criado por Casmurro sem teto
21:47:51 Quando entrei, percebi que muita coisa havia mudado. As paredes, antes verdes, estavam agora azuis, tranqüilas, celestiais. Recostei-me num paredão de ardósia cinza, da cor e da temperatura do borralho - quente. Era uma tarde de verão e o Sol reinava insigne em vão coberto por um manto leitoso, azul, límpido e preclaro. Fazia calor, confesso, mas eu insistia em usar um blusão preto, grosso, cheio de bolsos e zíperes. No caminho, havia vindo sem ele e o vento! Ventava bastante, um sopro gelado e eu me arrepiei todo. Estremeci de frio, senti-me desprotegido e logo vesti a jaqueta.
- O senhor está esperando há muito tempo?
Balancei a cabeça com força, não, cheguei faz cinco minutos. Era a enfermeira-chefe, eu a conhecia da primeira vez em que levei mamãe até lá, chamava-se Lúcia. Era alta, gorda, clara, de cabelos enferrujados e boca vermelha. Tenho costume de reparar na boca das pessoas e digo que elas representam uma parcela da personalidade do indivíduo. Uma parcela da dignidade, não sei. E os lábios de Lúcia não tinham nenhuma dignidade; eram uma tentativa de resgatar a mocidade acinzentada metendo-lhe matizes de vermelho. Imaginei então Lúcia passando o batom afogueado e se pintando toda, rabiscando a cara enluarada e pálida, os riscos.
Lúcia acompanhou-me até o segundo andar e deixou-me em frente à porta. Ela me encarou e isso incomodou-me um pouco. Parecia querer me fotografar com aqueles olhos infantis, me filmar, me gravar na memória. Era um olhar de pena dissolvida em desilusão. Fiz um gesto para Lúcia pedindo educadamente que saísse. E assim o fez.
Bati duas vezes na porta, perguntei se podia entrar. Uma voz frágil respondeu que sim, pode entrar. Entrei e vi que também haviam pintado os quartos. O verde dos cômodos internos dera lugar a um amarelo trigueiro e sereno. A cama mudara de posição: agora ficava embaixo da janela velha de madeira fosca. O guarda-roupa era o mesmo, os quadros na parede eram os mesmos. Ainda havia aquele grande espelho ao lado da penteadeira de jacarandá repleta de frascos de perfume vazios. Surpeendi-me ao ver também um vaso cafona de flores pintando com certa alegria o marasmo do jacarandá duro como sempre. Essa penteadeira é dela desde que se casou. Apenas decidiu trazê-la de casa quando se mudou, foi a primeira exigência, minha penteadeira!
- Mamãe! Como vai? – disse-me indo em direção à cama e sentando-me ao seu lado.
Ela resmungou algo que não pude ouvir. Continuou a olhar para um ponto fixo, o que seria? Toquei meus dedos em seus ombros e o robe lilás escorregou para trás deixando-lhe parte dos braços nus. Fale comigo, mamãe! Fale comigo! Debalde, ela estava imóvel, rija como aquele jacarandá pesado, como foi difícil tirá-lo de onde estava e colocar no caminhão que faria a mudança! Eu e mais cinco homens carregando-o, cuidado, o degrau! Um deles, no meio do esforço e da transpiração, ousou brincar: “Mas é a sua mãe que está aqui dentro?”. Eu não ri, apenas afirmei que a penteadeira era pesada mesmo e que se calassem! Estou fazendo um gosto da mamãe, disse comigo mesmo enquanto descia as escadas. Paguei aos outros cinco uma rodada de cerveja e acabei tomando uma também. E outra, e outra, e outra até que fui levado em casa pelo dono do boteco, amigo da mamãe. Ainda bem que sua mãe não está aqui para ver isto, ainda bem!, ele balbuciava com o seu acentuado sotaque português.
- Mamãe, olhe para mim. Quero saber como a senhora está. Eu vi que tudo está bonito, colorido, do jeito que a senhora gosta.
Estava triste, pesarosa. Lembrei-me do dia em que a família decidiu enfim interná-la num manicômio. Eu convenci minhas duas irmãs que a situação era insustentável, ela está mal, muito mal. “Não responde ao que eu pergunto, não entende nada, fica o dia inteiro deitada na cama, choramingando, delirando, chamando pelo papai, ela o vê entrando, tirando a farda, despindo-se para ela”, disse e vi que as duas se conformavam. Ao final, capitularam. Eu disse que acharia um bom lugar onde ela pudesse viver os seus últimos dias com dignidade. Dignidade, eu disse num tom mais alto e levantei-me antes de que elas fizessem alguma objeção.
“Você não é um filho – é um monstro!”, eu ouvi Anita gritar depois que eu deixei a mesa. Um monstro, um monstro, um monstro!, ela urrava, batia com a mão fechada contra a mesa, chocava os sapatos de salto contra o chão, descabelava-se. Eu me tranquei no quarto, fiquei colado à porta, respirei fundo, respirei. Por duas vezes cogitei voltar à cozinha e gritar também com Anita, eu não sou um monstro, sua mãe é que é louca! Uma louca com éle maiúsculo, uma doida varrida! Mas por duas vezes vacilei. No quarto contíguo, mamãe dormia. Dormia profundamente sob efeito dos remédios que eu lhe dava, naquele dia ela precisava debruçar nos braços de Morfeu sem ressalvas. Não queria que ela ouvisse as discussões.
- Mamãe, a Lúcia me disse que você continua fazendo crochê, não é? Que bom! Assim você se ocupa um pouco, não é mesmo? – disse-lhe, colocando minha mão sobre a dela.
Ela rapidamente tirou sua mão enrugada e transparente. As unhas roídas, sujas. Os lábios mortos, sem viço. Decrépita. Estava velha, arruinada. Devo-lhe muitas coisas, pensei. Ela me colocou no mundo, me amamentou nos primeiros momentos. Ela me amou e eu a amei. Eu a amei tanto que fiz o favor de dar a sua vida uma centelha de dignidade. Ela devia me agradecer, a ingrata. Mãe-ingrata. Decerto, ela pensou que viveria para sempre no meu apartamento, eu sustentando uma empregada e ela envolta em lençóis, o sonho, “o seu pai me apareceu essa noite tão lindo, tão lindo”. Não tínhamos afinidades, eu nem podia colocar os discos que queria na vitrola e ela chiava. Mater-dolorosa.
- Mamãe, não vai falar comigo hoje? – indaguei, quase desistindo.
- Você é que é o louco. Você é que deveria estar no meu lugar – ela disse levantando-se e sentando-se em frente aos seus perfumes. Você que é o louco.
Marcos Vinícius Ferrari

criado por Casmurro sem teto
02:30:07