Casmurro sem teto

"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma" (Fernando Pessoa)

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"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma" (Fernando Pessoa)
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Terra Blog

27.05.07

A amizade de Laura

   - Laura!!
   Ouvi uma voz aguda e baixa e senti uma mão fina e quente enlaçar meu braço nu. Meus reflexos não me permitiram pensar antes de virar para verificar de onde saira a voz. Apenas rodopiei de sobressalto, aquela mão estranha ainda me tocando. Vi Olívia.
   - Sente-se comigo, Laura! – disse exultante e os olhos pareciam duas bolas vermelhas de Natal, faltava uma semana para comemorarmos o nascimento do menino Jesus lá naquela manjedoura estreira de palha dourada e fresca. Olívia parecia uma criança cansada, a alça do vestido caindo preguiçosamente sobre os ombros descortinando-lhe o colo largo e honesto. Os brincos reluziam com um estalar verde folhudo e doce. Suas mãos brilhavam como se lhe tivessem peneirado ouro por cima. Seus cabelos ainda guardavam o ruivo invejado pelas garotas da época, mesclado pelos fios brancos que ousavam saltar dando-lhe uma aparência que, não sendo boa, não era má. Olívia estava velha.
   Não esperava encontrá-la ali naquele restaurante uma semana antes do Natal. Na verdade, nem queria encontrá-la. Havia quatro anos eu a evitava sistematicamente. Inventava compromissos, falava inverdades mas não me sentia mal. Conhecia Olívia havia 35 anos e sempre fomos a melhor amiga uma da outra. Desde os tempos de colégio onde aprendi pouco e ela menos ainda. Éramos alunas aplicadíssimas mas o conhecimento que se ensina com giz-e-lousa se perde facilmente. E ele se perdeu em Olívia ainda mais.
   Começamos a conversar por acaso num dos corredores da escola. Eu era uma garota estranha, eu me achava assim. Olívia tinha porte mas eu não a invejava, apenas a admirava. E assim nossa amizade cresceu de tal maneira que em dois anos dividíamos as mais secretas intimidades. Sempre quis ter uma grande amiga e vi em Olívia esse potencial. Durante minha faculdade de Sociologia, durante a minha prisão, durante o meu exílio, durante os partos, durante as agonias. Ela sempre esteve disposta a ajudar, a mão fina, que eu não reconhecera, apertando a minha, força, força. É uma menina, ela sussurrou sorridente no meu ouvido, é uma menina. E a sua voz baixa foi quebrada pelo choro de Alice, miúda, úmida e quente.
   - Nunca pensei te encontrar justo hoje e justo nesse restaurante! Que agradável coincidência, ela disse. Eu sorri disfarçando certa condescendência, eu também acho uma coincidência maravilhosa – disse e inflexionei a última palavra como nos tempos antigos.
   Olívia era uma pessoa agradável, de senso de humor arguto e afável, muito afável. Até Alice nascer, tínhamos conversas longas e prazentosas, um delicioso companheirismo e um maná infindo de afinidades. Depois, fomos nos afastando cada vez mais. Ela ainda me telefonava para contar-me fatos que haviam lhe ocorrido, mortes, tragédias, casos da redação do jornal, lia-me artigos inteiros pelo telefone. Nesses telefonemas, que eram extensos, havia espaços de áspero e palpitante silêncio. Ficávamos, o telefone colado à cara, sem falar pois não havia assunto.
   - O que fará nesse Natal?, perguntou me Olívia levantando pela sétima vez a alça teimosa do vestido e observado se alguém a via fazer tal gesto. Abanava-se com o cardápio cheio de preços e pratos que me distraíam, eu lendo os pratos e suas composições e Olívia inquieta com o calor.
   Talvez meu silêncio aturdiu Olívia que começou a mastigar a comida com o vagar incômodo da criança que espera a vida toda pelo presente de Natal que nunca chega. Comecei a devorar meu prato e decidi encontrar algum assunto para colocar em pauta, ela dizia assim, colocar em pauta. Jargão de jornalista, ela dizia rindo-se, jornalista premiada. Fui vê-la receber aquele prêmio, ela estava vermelha e transpirava nervosamente. Antes de subir para receber a pequena estatueta de bronze talhado sem cuidados especiais, ela queria me ver. Chamaram-me até a cochia, ela queria me abraçar, que eu lhe dava sorte. Você me dá sorte na vida, ela repetiu baixinho, aquelas mãos brancas.
   Isso foi há dez anos e, dali em diante fomos e não fomos mais as mesmas. Ainda admirava Olívia, gostava dela, era sua amiga como nos velhos tempos. Mas sua presença me exauria, seus telefonemas me eram enfadonhos, seus assuntos me eram indiferentes. Mas eu era amiga de Olívia? era, eu repeti para mim mesma ao ver a foto em que estávamos juntas na neve crocante de Bariloche, eu era amiga de Olívia, sim.
   Ali na mesa redonda do restaurante, agíamos como duas mulheres que se desconheciam há 35 anos. Eu queria pôr algo em pauta, o que, meu Deus? Falar-lhe de livros? Falar-lhe que viajaria para Londres no próximo ano? Não, já havia lhe falado disto no último telefonema. Falar-lhe de política? Não achava graça, ela estava muito mais dentro do assunto do que eu. Falar-lhe de poesia, do calor, dos filhos, da poluição dos rios, das horas que andam passando mais rápido. Nossos assuntos se esgotaram, eu olhando Olívia tão sóbria e simpática, o sorriso branquíssimo. Eu me sentia como se me afogasse numa lagoa de água anuviada como meu coração e Olívia me estendesse sua mão, a mão que eu nem mesmo reconhecera. O toque suave. Eu me afogava, minha boca se enchia daquela água barrenta, meu nariz. Mas eu me afundava plena na consciência de que a mão de Olívia estaria ali, parada como a duma estátua, rija como a duma estátua.
   Fui-me embora do restaurante após abraçar longamente Olívia e prometer ligar-lhe assim que pudesse. Salientei que levaria algum tempo; mas que telefonaria. Peguei minha bolsa e fui caminhando rumo à porta de vidro que me permitiu ver a cidade em vermelho e em negro. Uma fileira de tochas acesas estendia-se pela rua escura e pequenas chamas líquidas decoravam os edifícios que riscavam com grafite o céu. Entrei num táxi tal como chegara. E no conforto do banco de couro macio, fui pensando em Olívia com imensurável carinho. Olívia era minha melhor amiga. Não tínhamos assunto, não tínhamos tempo, não tínhamos idade. Mas amizade era para mim algo transcedental. Amizade, eu repeti comigo após o baque do táxi freando, é coisa de telepatia. De longe, nós sentimos uma à outra. No escuro abissal de nossas lembranças, nos queremos bem uma à outra. Essas coisas lindas, essas coisas ficarão, disse o poeta! exclamei para o taxista que abanou a cabeça com descrença me avisando que, enfim, havíamos chegado.

 

 

Marcos Vinícius Ferrari

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