Casmurro sem teto

"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma" (Fernando Pessoa)

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"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma" (Fernando Pessoa)
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Terra Blog

20.05.07

A penteadeira dos lábios cerrados

   Quando entrei, percebi que muita coisa havia mudado. As paredes, antes verdes, estavam agora azuis, tranqüilas, celestiais. Recostei-me num paredão de ardósia cinza, da cor e da temperatura do borralho - quente. Era uma tarde de verão e o Sol reinava insigne em vão coberto por um manto leitoso, azul, límpido e preclaro. Fazia calor, confesso, mas eu insistia em usar um blusão preto, grosso, cheio de bolsos e zíperes. No caminho, havia vindo sem ele e o vento! Ventava bastante, um sopro gelado e eu me arrepiei todo. Estremeci de frio, senti-me desprotegido e logo vesti a jaqueta.
   - O senhor está esperando há muito tempo?
   Balancei a cabeça com força, não, cheguei faz cinco minutos. Era a enfermeira-chefe, eu a conhecia da primeira vez em que levei mamãe até lá, chamava-se Lúcia. Era alta, gorda, clara, de cabelos enferrujados e boca vermelha. Tenho costume de reparar na boca das pessoas e digo que elas representam uma parcela da personalidade do indivíduo. Uma parcela da dignidade, não sei. E os lábios de Lúcia não tinham nenhuma dignidade; eram uma tentativa de resgatar a mocidade acinzentada metendo-lhe matizes de vermelho. Imaginei então Lúcia passando o batom afogueado e se pintando toda, rabiscando a cara enluarada e pálida, os riscos.
   Lúcia acompanhou-me até o segundo andar e deixou-me em frente à porta. Ela me encarou e isso incomodou-me um pouco. Parecia querer me fotografar com aqueles olhos infantis, me filmar, me gravar na memória. Era um olhar de pena dissolvida em desilusão. Fiz um gesto para Lúcia pedindo educadamente que saísse. E assim o fez.
   Bati duas vezes na porta, perguntei se podia entrar. Uma voz frágil respondeu que sim, pode entrar. Entrei e vi que também haviam pintado os quartos. O verde dos cômodos internos dera lugar a um amarelo trigueiro e sereno. A cama mudara de posição: agora ficava embaixo da janela velha de madeira fosca. O guarda-roupa era o mesmo, os quadros na parede eram os mesmos. Ainda havia aquele grande espelho ao lado da penteadeira de jacarandá repleta de frascos de perfume vazios. Surpeendi-me ao ver também um vaso cafona de flores pintando com certa alegria o marasmo do jacarandá duro como sempre. Essa penteadeira é dela desde que se casou. Apenas decidiu trazê-la de casa quando se mudou, foi a primeira exigência, minha penteadeira!
   - Mamãe! Como vai? – disse-me indo em direção à cama e sentando-me ao seu lado.
   Ela resmungou algo que não pude ouvir. Continuou a olhar para um ponto fixo, o que seria? Toquei meus dedos em seus ombros e o robe lilás escorregou para trás deixando-lhe parte dos braços nus. Fale comigo, mamãe! Fale comigo! Debalde, ela estava imóvel, rija como aquele jacarandá pesado, como foi difícil tirá-lo de onde estava e colocar no caminhão que faria a mudança! Eu e mais cinco homens carregando-o, cuidado, o degrau! Um deles, no meio do esforço e da transpiração, ousou brincar: “Mas é a sua mãe que está aqui dentro?”. Eu não ri, apenas afirmei que a penteadeira era pesada mesmo e que se calassem!  Estou fazendo um gosto da mamãe, disse comigo mesmo enquanto descia as escadas. Paguei aos outros cinco uma rodada de cerveja e acabei tomando uma também. E outra, e outra, e outra até que fui levado em casa pelo dono do boteco, amigo da mamãe. Ainda bem que sua mãe não está aqui para ver isto, ainda bem!, ele balbuciava com o seu acentuado sotaque português.
   - Mamãe, olhe para mim. Quero saber como a senhora está. Eu vi que tudo está bonito, colorido, do jeito que a senhora gosta.
   Estava triste, pesarosa. Lembrei-me do dia em que a família decidiu enfim interná-la num manicômio. Eu convenci minhas duas irmãs que a situação era insustentável, ela está mal, muito mal. “Não responde ao que eu pergunto, não entende nada, fica o dia inteiro deitada na cama, choramingando, delirando, chamando pelo papai, ela o vê entrando, tirando a farda, despindo-se para ela”, disse e vi que as duas se conformavam. Ao final, capitularam. Eu disse que acharia um bom lugar onde ela pudesse viver os seus últimos dias com dignidade. Dignidade, eu disse num tom mais alto e levantei-me antes de que elas fizessem alguma objeção.
   “Você não é um filho – é um monstro!”, eu ouvi Anita gritar depois que eu deixei a mesa. Um monstro, um monstro, um monstro!, ela urrava, batia com a mão fechada contra a mesa, chocava os sapatos de salto contra o chão, descabelava-se. Eu me tranquei no quarto, fiquei colado à porta, respirei fundo, respirei. Por duas vezes cogitei voltar à cozinha e gritar também com Anita, eu não sou um monstro, sua mãe é que é louca! Uma louca com éle maiúsculo, uma doida varrida! Mas por duas vezes vacilei. No quarto contíguo, mamãe dormia. Dormia profundamente sob efeito dos remédios que eu lhe dava, naquele dia ela precisava debruçar nos braços de Morfeu sem ressalvas. Não queria que ela ouvisse as discussões.
   - Mamãe, a Lúcia me disse que você continua fazendo crochê, não é? Que bom! Assim você se ocupa um pouco, não é mesmo? – disse-lhe, colocando minha mão sobre a dela.
   Ela rapidamente tirou sua mão enrugada e transparente. As unhas roídas, sujas. Os lábios mortos, sem viço. Decrépita. Estava velha, arruinada. Devo-lhe muitas coisas, pensei. Ela me colocou no mundo, me amamentou nos primeiros momentos. Ela me amou e eu a amei. Eu a amei tanto que fiz o favor de dar a sua vida uma centelha de dignidade. Ela devia me agradecer, a ingrata. Mãe-ingrata. Decerto, ela pensou que viveria para sempre no meu apartamento, eu sustentando uma empregada e ela envolta em lençóis, o sonho, “o seu pai me apareceu essa noite tão lindo, tão lindo”. Não tínhamos afinidades, eu nem podia colocar os discos que queria na vitrola e ela chiava. Mater-dolorosa.
   - Mamãe, não vai falar comigo hoje? – indaguei, quase desistindo.
   - Você é que é o louco. Você é que deveria estar no meu lugar – ela disse levantando-se e sentando-se em frente aos seus perfumes. Você que é o louco.


Marcos Vinícius Ferrari

3 comentários
  • Em 21.05.07, às 21:05:26,
  • Vitor disse :
Senti uma pontada de tristeza...

Sinto pena deles, o "loucos". Mas nada como a penteadeira de jacarandá...

Vitor
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  • Em 20.05.07, às 15:43:05,
  • maa disse :
E depois a louca sou eu...
Parabéns Marcos.!
bejo

ps: sono
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  • Em 20.05.07, às 02:41:17,
  • Erica USURPADORA disse :
E eu lhe digo o mesmo,meu caro
"você que é o louco, é você"
louco que escreve,mas não só escreve!

Bjoness
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