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Agachei-me e espreitei-me pelo jardim úmido e fresco parando vez ou outra para admirar as estátuas ebúrneas e frias. Passava as minhas mãos sobre a superfície lisa das pernas de mármore e as nuanças perfeitas do pano que lhe cobria os ombros e braços largos. Música petrificada. Andava ainda pelo jardim vicejante cabisbaixo. Não encarava o Sol mas o imaginava posto no centro perfeito da imensidão azul, ardendo e se consumindo na própria chama. Meus olhos fixos na fila de formigas trabalhadoras que caminhavam cambaleantes à margem de concreto do verde. O peso da folha sobre o corpo. Soprei com certa superioridade o seu fardo e a formiga me encarou e resmungou com tanta cólera que recoloquei a folha no decurso de sua função natural. São belas as coisas assim naturais, exclamei alcançando a varanda ampla cujo chão se expunha aos raios filtrados de sol.
Detive-me à porta. Ouvi o ruído da máquina de escrever, o bater ágil e constante daquela Olivetti velha e de articulações rígidas. Uma vez, pedi-lhe para ver aquele aparelho de fazer histórias - tléc tléc tléc tléc – que habitava havia muito o meu imaginário – tléc tléc tléc tléc. Ele enfiou os dedos em meus cabelos, encarapinhados e escuros e sorriu um sorriso marmóreo como o olho inumano da estátua. Ele trouxe-me caixa em que guardava a máquina, relíquia enferrujada e retesada, as teclas. O pó levantou-se e pequenas partículas de nostalgia expandiram-se livres pelo ar, conta a vidraça, contra a luz. Eu toquei as letras com a ponta dos dedos e me assustei com o barulho súbito da Olivetti quando, acidentalmente, recostei meus pulsos com mais força sobre ela. Ela ria de contentamento e pedia que eu datilografasse algo do jeito que ele fazia. Tentei imitar sua posição: o cigarro – imaginário – escorregando no canto esquerdo da boca, uma mão levantada e a outra tamborilando a velha escrivaninha, os dedos endurecidos, o olhar baixo, os pés colados um ao outro, tléc, tléc, tléc, eu datilografando como ele fazia.
Ele chamava-se Otávio, assim como o imperador romano, ele me dizia. E ainda me informava que uma daquelas estátuas do meio do jardim era uma réplica da estátua de Otávio Augusto da Prima Porta. Augusto, ele reiterava acendendo o charuto, significa enviado de Deus. E apontava para cima com o charuto fedorendo, Deus. Eu me enchia daquele ar sublime de sabedoria de Otávio, o jeito com que ele inflexionava as palavras dando-lhes ou tirando-lhes a ênfase necessária. A voz rouca, tossia longamente também. Encostava-se na janela tingida pelo arrebol e tossia, estremecia-se todo e contorcia-se infantil.
Otávio foi meu ídolo. Eu nunca disse isso a ele, é claro, ele falava dos ídolos de barro e eu não entendia nada. Otávio era um homem feliz, eu pressupunha. Não tinha esposa, não tinha filhos, tinha um cachorro, Joyce, mas Joyce é nome de mulher, não é?, eu perguntava inocente. Ele tirava os olhos da janela que dava para o jardim de folhagem tépida expondo-se ao vermelho sem pudores, as flores se abrindo. Otávio ia buscar um livro de Joyce e esfregava em minha cara, um dia você vai entendê-lo, ele me dizia. Eu queria ter a idade de Otávio não só para entender James Joyce e batizar assim meu cão, mas queria ser como ele. Culto, erudito, bonito - tinha lá sua beleza, reconheço -, viajado, famoso. Escritor. Tinha doze anos mas queria saltar a adolescência e aqueles floreios todos e chegar à idade dele. Com a sobriedade dele.
Ele tinha um jeito todo especial de escrever. Por possuir uma memória fraquíssima, costumava andar com um bloco de anotações pequeno e velho no bolso e um caneta grossa, com detalhes dourados e o nome Otávio Coelho. Achava engraçado o Coelho do sobrenome. Ele dizia que, durante o dia todo, tinha surtos criativos e anotava tudo. Uma vez, estava na cozinha preparando um pouco de café e largou tudo o que estava na pia para anotar uma palavra. Amarfanhado, ele disse que aquela palavra veio em sua cabeça, martelando, martelando, a palavra pedia para ser escrita. Ele anotou. O jeito dele enlaçar a caneta era peculiar, único e inimitável. Os dedos tinham qualquer coisa de rigidez prendendo a caneta como se ela quisesse fugir, Otávio Coelho já desgastado pelo uso constante. Contudo, ao escrever, tudo era fluido e leve, a ponta acinzentada da caneta mal encostava no papel que não se continha naquele frêmito de epifania.
Ele preparava o café na cozinha antes de lhe aparecer a luz da inspiração. Seu jeito de fazer café também era especial. Não usava filtros ou coadores, apenas despejava pó de café numa xícara de água fervente. Cheirava o café e dizia se lembrar de um tempo muito distante em que vivia numa fazenda do interior e aquele cheiro de café! Mas lá, ele me falava, o cheiro era puro, essencial, os grãos vermelhos, vermelhos – adorava repetir adjetivos como que para dar mais destaque. Mas o café que bebia era ruim, uma bebida rala e amarga, amarga como eram os seus livros. A morte. A saudade. O pessimismo diluído em certo sarcasmo como o pó negro diluído na água borbulhante. Otávio era sarcástico e cruel às vezes.
Durante parte da minha infância, ia todos os dias até a casa de Otávio, geralmente no final da tarde. No começo, eu ia somente até o jardim e escondia-me atrás da maior estátua. Depois, tomei coragem e alcancei a varanda, prostrando-me ali durante três tardes consecutivas. Pude entrar no quarto dia e ele se apresentou, meu nome é Otávio Coelho, sou escritor, e você, quem é? Balbuciei meia dúzia de palavras e desviei o olhar de Otávio para o sofá, do sofá para os bibelôs sobre a mesa, dos bibelôs sobre a mesa para o abajur de luz roxa, do abajur de luz roxa para a máquina de escrever e me fixei nela. Com o tempo, Otávio se acostumou a mim e eu me acostumei a ele e viramos logo amigos. O sarcasmo dele me assustava e o tornava por vezes superficial. Superfície da casca que o cobria. O homem infeliz, o redemoinho que levou a esposa, os filhos, os livros, as lembranças. Numa das últimas vezes que o encontrei (eu tinha 14 anos), vi-o chorando sobre a máquina de escrever. Aproximei-me, peguei em sua mão gelada e perguntei o que havia acontecido. Nunca havia visto Otávio desabar assim, como tijolos caindo da coluna de um edifício. A catarse.
O tléc tléc tléc tléc ainda continuava. Atravessei o corredor apertado e cheguei até a sala. Pude imaginar Otávio sentado, tal qual Inês em sossego, os seus dedos pesando sobre as teclas, a explosão. Mas ele não estava mais lá. O tléc tléc tléc tléc da minha lembrança. A cadeira de encosto almofadado vermelho vazia. O abajur de luz arroxeada, cadê? Joyce havia morrido? Ou fugido? Cão fiel demais para abandonar a casa em que foi criado. A velha Olivetti cansada de guerra ainda estava lá intacta, um pouco empoeirada. Mais velha do que era antes, se é que isso era possívei. Peguei-a, coloquei-a em sua velha caixa de lata com desvelo, pus debaixo do braço e saí. Ao lado da porta, um retrato antigo de Otávio que parecia sorrir para mim disse-me com a voz rouca:
- Essa máquina é sua! É toda sua!
Atravessei novamente o jardim de volta e ainda puder ver o Otávio Augusto de mármore piscando seus olhos sem fundo para mim.
Marcos Vinicius Ferrari
criado por Casmurro sem teto
17:34:49