Casmurro sem teto

"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma" (Fernando Pessoa)

Casmurro sem teto

"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma" (Fernando Pessoa)
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Terra Blog

03.06.07

Admiração

   Agachei-me e espreitei-me pelo jardim úmido e fresco parando vez ou outra para admirar as estátuas ebúrneas e frias. Passava as minhas mãos sobre a superfície lisa das pernas de mármore e as nuanças perfeitas do pano que lhe cobria os ombros e braços largos. Música petrificada. Andava ainda pelo jardim vicejante cabisbaixo. Não encarava o Sol mas o imaginava posto no centro perfeito da imensidão azul, ardendo e se consumindo na própria chama. Meus olhos fixos na fila de formigas trabalhadoras que caminhavam cambaleantes à margem de concreto do verde. O peso da folha sobre o corpo. Soprei com certa superioridade o seu fardo e a formiga me encarou e resmungou com tanta cólera que recoloquei a folha no decurso de sua função natural. São belas as coisas assim naturais, exclamei alcançando a varanda ampla cujo chão se expunha aos raios filtrados de sol.
   Detive-me à porta. Ouvi o ruído da máquina de escrever, o bater ágil e constante daquela Olivetti velha e de articulações rígidas. Uma vez, pedi-lhe para ver aquele aparelho de fazer histórias - tléc tléc tléc tléc – que habitava havia muito o meu imaginário – tléc tléc tléc tléc. Ele enfiou os dedos em meus cabelos, encarapinhados e escuros e sorriu um sorriso marmóreo como o olho inumano da estátua. Ele trouxe-me caixa em que guardava a máquina, relíquia enferrujada e retesada, as teclas. O pó levantou-se e pequenas partículas de nostalgia expandiram-se livres pelo ar, conta a vidraça, contra a luz. Eu toquei as letras com a ponta dos dedos e me assustei com o barulho súbito da Olivetti quando, acidentalmente, recostei meus pulsos com mais força sobre ela. Ela ria de contentamento e pedia que eu datilografasse algo do jeito que ele fazia. Tentei imitar sua posição: o cigarro – imaginário – escorregando no canto esquerdo da boca, uma mão levantada e a outra tamborilando a velha escrivaninha, os dedos endurecidos, o olhar baixo, os pés colados um ao outro, tléc, tléc, tléc, eu datilografando como ele fazia.
   Ele chamava-se Otávio, assim como o imperador romano, ele me dizia. E ainda me informava que uma daquelas estátuas do meio do jardim era uma réplica da estátua de Otávio Augusto da Prima Porta. Augusto, ele reiterava acendendo o charuto, significa enviado de Deus. E apontava para cima com o charuto fedorendo, Deus. Eu me enchia daquele ar sublime de sabedoria de Otávio, o jeito com que ele inflexionava as palavras dando-lhes ou tirando-lhes a ênfase necessária. A voz rouca, tossia longamente também. Encostava-se na janela tingida pelo arrebol e tossia, estremecia-se todo e contorcia-se infantil.
   Otávio foi meu ídolo. Eu nunca disse isso a ele, é claro, ele falava dos ídolos de barro e eu não entendia nada. Otávio era um homem feliz, eu pressupunha. Não tinha esposa, não tinha filhos, tinha um cachorro, Joyce, mas Joyce é nome de mulher, não é?, eu perguntava inocente. Ele tirava os olhos da janela que dava para o jardim de folhagem tépida expondo-se ao vermelho sem pudores, as flores se abrindo. Otávio ia buscar um livro de Joyce e esfregava em minha cara, um dia você vai entendê-lo, ele me dizia. Eu queria ter a idade de Otávio não só para entender James Joyce e batizar assim meu cão, mas queria ser como ele. Culto, erudito, bonito - tinha lá sua beleza, reconheço -, viajado, famoso. Escritor. Tinha doze anos mas queria saltar a adolescência e aqueles floreios todos e chegar à idade dele. Com a sobriedade dele.
   Ele tinha um jeito todo especial de escrever. Por possuir uma memória fraquíssima, costumava andar com um bloco de anotações pequeno e velho no bolso e um caneta grossa, com detalhes dourados e o nome Otávio Coelho. Achava engraçado o Coelho do sobrenome. Ele dizia que, durante o dia todo, tinha surtos criativos e anotava tudo. Uma vez, estava na cozinha preparando um pouco de café e largou tudo o que estava na pia para anotar uma palavra. Amarfanhado, ele disse que aquela palavra veio em sua cabeça, martelando, martelando, a palavra pedia para ser escrita. Ele anotou. O jeito dele enlaçar a caneta era peculiar, único e inimitável. Os dedos tinham qualquer coisa de rigidez prendendo a caneta como se ela quisesse fugir, Otávio Coelho já desgastado pelo uso constante. Contudo, ao escrever, tudo era fluido e leve, a ponta acinzentada da caneta mal encostava no papel que não se continha naquele frêmito de epifania.
   Ele preparava o café na cozinha antes de lhe aparecer a luz da inspiração. Seu jeito de fazer café também era especial. Não usava filtros ou coadores, apenas despejava pó de café numa xícara de água fervente. Cheirava o café e dizia se lembrar de um tempo muito distante em que vivia numa fazenda do interior e aquele cheiro de café! Mas lá, ele me falava, o cheiro era puro, essencial, os grãos vermelhos, vermelhos – adorava repetir adjetivos como que para dar mais destaque. Mas o café que bebia era ruim, uma bebida rala e amarga, amarga como eram os seus livros. A morte. A saudade. O pessimismo diluído em certo sarcasmo como o pó negro diluído na água borbulhante. Otávio era sarcástico e cruel às vezes.
   Durante parte da minha infância, ia todos os dias até a casa de Otávio, geralmente no final da tarde. No começo, eu ia somente até o jardim e escondia-me atrás da maior estátua. Depois, tomei coragem e alcancei a varanda, prostrando-me ali durante três tardes consecutivas. Pude entrar no quarto dia e ele se apresentou, meu nome é Otávio Coelho, sou escritor, e você, quem é? Balbuciei meia dúzia de palavras e desviei o olhar de Otávio para o sofá, do sofá para os bibelôs sobre a mesa, dos bibelôs sobre a mesa para o abajur de luz roxa, do abajur de luz roxa para a máquina de escrever e me fixei nela. Com o tempo, Otávio se acostumou a mim e eu me acostumei a ele e viramos logo amigos. O sarcasmo dele me assustava e o tornava por vezes superficial. Superfície da casca que o cobria. O homem infeliz, o redemoinho que levou a esposa, os filhos, os livros, as lembranças. Numa das últimas vezes que o encontrei (eu tinha 14 anos), vi-o chorando sobre a máquina de escrever. Aproximei-me, peguei em sua mão gelada e perguntei o que havia acontecido. Nunca havia visto Otávio desabar assim, como tijolos caindo da coluna de um edifício. A catarse.
  

   O tléc tléc tléc tléc ainda continuava. Atravessei o corredor apertado e cheguei até a sala. Pude imaginar Otávio sentado, tal qual Inês em sossego, os seus dedos pesando sobre as teclas, a explosão. Mas ele não estava mais lá. O tléc tléc tléc tléc da minha lembrança. A cadeira de encosto almofadado vermelho vazia. O abajur de luz arroxeada, cadê? Joyce havia morrido? Ou fugido? Cão fiel demais para abandonar a casa em que foi criado. A velha Olivetti cansada de guerra ainda estava lá intacta, um pouco empoeirada. Mais velha do que era antes, se é que isso era possívei. Peguei-a, coloquei-a em sua velha caixa de lata com desvelo, pus debaixo do braço e saí. Ao lado da porta, um retrato antigo de Otávio que parecia sorrir para mim disse-me com a voz rouca:
   - Essa máquina é sua! É toda sua!
   Atravessei novamente o jardim de volta e ainda puder ver o Otávio Augusto de mármore piscando seus olhos sem fundo para mim.

 

Marcos Vinicius Ferrari

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