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Devido ao carniça do Terra que limitou os caracteres, o texto está dividido em duas partes. Ele começa aqui e termina no post abaixo. ;)
Quando cheguei à cidade de Boa Esperança e perguntei por Maria Sorriso, não obtive resultados de pronto. Era eu um jornalista que me formara havia pouco e ainda guardava qualquer coisa de insegurança e paixão. Não à toa fui o escolhido dentre uma dezena de outros jornalistas da redação para pesquisar sobre a vida e o mistério que envolvia Maria Sorriso. Mas digo que, ao cheguar àquela cidade fumegada pelo lábio seco do Sol e embalada pelas cantigas das negras prostradas nas varandas, não via possibilidade de êxito. Não havia resquícios da morte de Maria, que talvez tivesse escapado por entre o falar das gentes. Foi só lentamente que eu descobri coisas a respeito dela – primeiro, a casa em que vivia, depois as roupas, depois o endereço de um neto e por fim, o lugar em que foi enterrada vestida naquela túnica azul, esmaecida e coberta por flores pálidas e murchas. “Quando a tampa escura do caixão tampou o estojo, ela ainda sorria”, garantiu-me o neto.
Maria, segundo a certidão de nascimento borrada que encontrei em meio à suas coisas, nascera numa cidadezinha pequena do Maranhão. Viera para São Paulo ainda jovem. E segundo a certidão de óbito, ainda fresca nos registros municipais, ela morrera numa tarde turva e mole de abril. A causa mortis, entretanto, era dada como desconhecida. Dobrei a certidão em quatro e coloquei-a no bolso ao sair do cartório sem ser percebido. Foi a partir daquele ponto confuso e intrigante que iniciei minha investigação a respeito de Maria Sorriso. Em seis meses, entrevistei cerca de quarenta pessoas, habitantes ou não de Boa Esperança. Tudo ficou registrado em meu gravador e em cerca de dezesseis fitas que, transcritas, equivaleram a seis cadernos escolares cheios. Ainda somo a este material recortes de matérias ou notas em jornais da região, tendo encontrado uma pequena e invisível nota de rodapé sobre Maria num jornal do Rio de Janeiro. Quando tinha já completas as entrevistas e as buscas, fui encontrar-me com dois médicos especialistas de São Paulo e fiz-lhe perguntas a respeito das possibilidades da verdadeira razão do óbito de Maria, encoberto por nuvens de ceticiscmo e folclore, fosse verossímil. Assumo que ter conhecido a vida Maria assemelhou-se a uma avalanche em mim-mesmo de modo que me encontrei diferente daquele jornalista pueril cheirando a sândalo do começo quando enfim publiquei “A história de Maria Sorriso”, que alcançou inacreditável sucesso de vendas e editoração. Vou lhes contar, em linhas gerais, a história de Maria ou Maria Sorriso.
Ela morava numa rua estreita às margens do córrego do Cabrito, ponto limítrofe entre Boa Esperança e a cidade vizinha, Santa Isabel das Águas. A casa de Maria era pequena e de taipa de pilão. Apenas dois cômodos: num ficava o seu quarto composto por uma cama de madeira sobre a qual estava colocado um colchão fino, velho e cheirando à umidade e a fezes de rato. Ratos, baratas e toda sorte de insetos costumavam invadir a casa de Maria, talvez em busca de um lugar que fosse minimamente melhor que o esgoto. As paredes eram infiltradas, tomadas por rachaduras e cortadas por fios escuros que se estendiam do teto até o chão. Noutro cômodo, ficavam a cozinha – uma geladeira advinda da doação de uma patroa, uma mesa de pernas tortas e um fogão de quatro bocas em que apenas uma delas funcionava – e a sala – um sofá com cor-de-vinho com duas grandes fendas nas extremidades, uma televisão que captava apenas duas emissoras e uma prateleira de madeira sobre a qual estava aberta uma Bíblia no salmo 91. As folhas da Bíblia amarelecidas pelo tempo. Eu lhe mostrarei a salvação, diziam os versos escritos em letra miúda. Maria Sorriso gostava de lê-los repetidas vezes tornando-se assim a única coisa que lia, mesmo sem ser religiosa.
Maria enviuvara cedo, logo após nove anos de casamento. Seu marido, Odílio da Conceição, saira certa vez para comprar cigarros e nunca mais voltou. Maria cuidou então dos quatro filhos do casal. Naquele tempo, surgiram especulações sobre o paradeiro de Odílio. O mais aceitável era o de que ele arranjara uma amante e estavam vivendo numa pensão próxima ao porto, local em que uma das vizinha havia visto – mesmo que de longe – Odílio. Maria sofrera de início, mas não chorara. Teve de começar a trabalhar para sustentar Odílio Júnior, Jorge, Pedro Henrique e Francisco. Durante vinte e um anos foi doméstica. A cara negra de Maria respingava e aquecia-se cheia de gotas de suor enquanto trabalhava arduamente afundando os braços fortes e cor de azeviche nos vasos sanitários. Lustrava os móveis, esfregava com volúpia e cadência as roupas sujas da patroa no tanque – descartando a máquina de lavar por certo orgulho e obsolecência –, cozinhava, passava as roupas com o ferro de passar pesado e fumegante. Entrava às sete e, geralmente não tinha horário fixo para sair. Sua patroa, a dentista Marta gostava de Maria, que segundo ela, era prestimosa, habilidosa e “tinha sempre o sorriso no rosto”. O sorriso.
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criado por Casmurro sem teto
00:41:23