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(...)
Maria Sorriso morava muito longe da casa de Marta. Por isso, acordava às três e meia da manhã e saia de casa às quatro e quinze para tomar um ônibus, um trem e um ônibus. O trem recamado de lata acinzentada e achatada seguia lento e cheio de pessoas que se chocavam entre si. Maria não sabia o que era conforto e, durante a viagem, os homens de barba ruiva lhe roçavam o sexo sem o mínimo de dignidade. Maria se incomodava, mas calava-se como se mastigasse vidro moído. Nada afetava Maria. Nem o salário irrisório. Nem a fome. Nem as humilhações. Nem as palavras maldosas que os garotos de Boa Esperança lhe dirigiam, fosse pela sua cor, fosse pela sua idade, fosse pelas suas roupas velhas e esdrúxulas.
Maria trabalhava seis dias por semana e encontrava no domingo certo refúgio sacro. Nesses dias, acordava cedo, lavava suas roupas, as roupas de seus filhos, e dos filhos de seus filhos. Então, cozinhava para seus filhos e para os filhos de seus filhos. Enquanto estes comiam como bárbaros reclamando pela demora – “o fogão só tem uma boca e eu só tenho duas mãos”, ela dizia tranqüila, sorrindo -, Maria sentava-se no sofá e, totalmente absorta, pintava as unhas desgastadas da mão de vermelho. Passava também um batom da mesma cor na boca carnuda e árida. Ela tinha ainda outros pequenos prazeres: enfiar o dedo no copo de leite morno e depois lambê-lo como se fosse a última gota do mais precioso líquido do mundo; passar o grosso dedo anelar sobre o sal grosso das peças de bacalhau expostas nos supermercados e cobertas por aquela fina teia branca cheia de pequenos furos; olhar-se no enorme espelho do banheiro de Marta e encarar ela mesma por longos minutos como se quisesse decifrar levemente a mulher do outro lado, igualmente feia, igualmente pobre, igualmente indefinida.
Maria Sorriso nunca soube o que era descanso, além das cinco horas em que dormia. Dormia mal, tinha sonhos belos tingidos de cores claras. Havia sempre uma relva dourada, havia coelhos, havia galinhas, e ela sorrindo. Maria sorria por tudo, de tudo, para tudo. Sua vida medíocre como a vida da galinha do sonho não era para ela motivo de choro ou remorso. Tampouco estava preparada para lançar-se no grande abismo da existência e conhecer a si mesma. Ela já se conhecia, Maria Sorriso, prazer, ela dizia ao se apresentar para algum desconhecido. Ela se julgava feliz por nunca ter conhecido a verdadeira felicidade. Gostava de ver seus netos, todos muito pequenos, que desde cedo demonstravam não gostar da avó. Tinha amor pelos filhos que lhe emprestavam a contra-gosto um certo respeito mascarado pela vergonha. Tinha uma cadela vira-lata, Lalá, de pelo escasso e escuro. A pobre coçava-se o dia todo com a pata cansada, o olhar triste. Até ela devia sentir comiseração por Maria e, vez ou outra, sentava no seu colo para lhe fazer compania. Maria sorria.
Mas houve um fato que mudou definitivamente o curso da história de Maria tirando-lhe da oscuridade que lhe conferia a pobreza e a miséria e jogando-lhe para o alto da glória humana. Certa vez, Maria foi até à mercearia mais próxima, que distava três quilômetros de sua casa. Sentado à porta, estava Joãozinho Beija-Flor, famoso mendigo da região. Sua testa brilhava iluminada pelo sol quente como só ele sabe ser nos lugares mais pobres. Maria agachou-se cordial e cumprimentou Joãozinho. Segundo testemunhas, os dois conversaram por alguns dois minutos. Foi quando Maria tombou para trás batendo-se contra o concreto duro da calçada quente. Joãozinho começou a rir, provavelmente do que ele mesmo havia dito. Talvez uma piada? Uma anedota? Maria abriu as pernas e lançou-as para cima. Sua garganta abriu-se e se expôs num grito gutural. Rolou-se no chão, sujando sua roupa encardida pelo uso. Os braços elétricos. Os olhos abriam e fechavam como os de criança vindo ao mundo e se deparando com um banquete de luzes e vozes. Enquanto Maria rolava no chão como um animal regozijando depois de comer, uma onda vermelha rasgou o céu azul. O Sol tornou-se, enfim, o céu, as casas, as pessoas e a terra inteira.
Sentiu-se um esturpor quente e todos tremiam como se fossem feitos de borracha. Maria enfim riu. E sua risada foi tão larga, tão sincera, tão fastuosa, tão. Tudo foi tão forte como uma tempestade e Maria não aguentou. Ao fim de três minutos initerruptos de tremor, ela morreu. Para aquele ser humano aparentemente rijo, a risada foi algo arrebatador por demais. Foi um mergulho profundo e ousado na água turva de sua própria existência. Maria morreu de rir. Maria morreu de se rir? Morreu. E, depois, a cidade inteira passou sorrindo ao lado do corpo endurecido e gelado.
Marcos Vinícius Ferrari
criado por Casmurro sem teto
00:40:23