Casmurro sem teto

"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma" (Fernando Pessoa)

Casmurro sem teto

"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma" (Fernando Pessoa)
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Terra Blog

23.05.07

Minha felicidade clandestina

   Tudo era silêncio quando ele chegou. Sentou-se próximo de mim, obersvou-me com certa curiosidade. Era um final de tarde, a neblina quente e úmida já estava baixa e era tangível. O final da tarde, para mim, é o momento mais melancólico do dia, o mormaço veloz, o Sol enleado com o horizonte sereno esgalhando-se em fios dourados que nas extremidade de afogueiam, se arroxeiam também. O rebojo das nuvens era pouco visível: o céu era uma vasta paisagem homogênea e esbranquiçada. O chão estava molhado, as plantas por isto pareciam felizes, lânguidas, moles, radiosas.
   Eu estava sentado num banco de pedra defronte dele, enjeirido de frio. Eu lia Clarice Lispector, Felicidade Clandestina, os contos. Palavras-faca, eu ali imóvel, o clube se esvaziando, o que eu fazia ali mesmo? Eu precisava saber que horas eram, desejava saber as razões de estar ali naquela tarde tão quente-fria. Mas não podia; não conseguia me desvirtuar de Clarice, palavra concatenando palavra e eu sem poder respirar. O trapézio! O livro fino parecia grudado, atado às minhas mãos, intrínseco a mim – e parecia que a minha vida toda eu estive junto do livro, naquele momento ele me era essencial. O que eu estava fazendo ali?
   Mas ele continuava me olhando, agora com certa estranheza. Devia me ver tão atento, tão fixo e achar estranho. Voltei meus olhos para o livro mas, de esguelha, pude ver que ele se levantou de onde estava, ergueu os braços como se se espreguiçasse e caminhou na minha direção. Mas parou a uns três metros de mim, eu acho que já o conhecia. Devia tê-lo visto algumas vezes pelos corredores do clube, de relance. Tinha a cara estranha, os olhos gordos, a pele clara, os cabelos vastos e escuros. Era ele todo estranho. Não pude mais me concentrar em Clarice, a magia havia sido quebrada. A força irresistível de atração àquelas páginas perfumadas, àquelas palavras unidas, pares, escurecidas. Uma gota de água caiu bem em cima da página aberta do livro, droga! Uma mancha imensa se fez na página límpida.
   - Droga!, gritei, verificando que começara a chover. Percebi que ele vira a minha irritação e começou a me fitar com certo encantamento. Mas talvez olhasse fixamente para o livro que repousava fechado sobre minhas mãos unidas em forma de concha.
   - Com licença, qual é o nome do livro? – ele me perguntou. Imaginei o esforço e a dificuldade de me abordar livrando a timidez e a vergonha. Mas a voz não saiu epifânica e sim baixa e macia.
   - Felicidade Clandestina – disse de prontidão como se estivesse esperando por aquela pergunta desde a eternidade.
   - De...quem? – a voz saiu quase chorosa.
   - Clarice. Clarice Lispector. Uma grande escritora.
   Ele mexeu a cabeça concordando. Os olhos estavam lacrimejantes, mas não queriam dizer que estavam chorando – como a garota Ofélia de um dos contos. Fiz logo esta associação e encarei-o com certa piedade. Sempre detestei sentir pena dos outros, mas naquele momento senti isso pulsar, com força e dor. Os olhos infantis presos no livro que eu, egoísta, segurava contra o peito protegendo-o da garoa fina e renitente. As plantas ainda mais felizes lançando num sorriso vegetal o sorvedouro da água cheirando a poeira. Senti-me como a garota da história que evitava que a outra entrasse em contato com outro livro. E ele era a garota obstinada, os olhos acesos pegando fogo, as noites em claro pensando num único livro – sua salvação. Ou eu o era?
   - Você quer ler? – eu indaguei, apontando para o livro apertado contra a lã seca da minha blusa.
   Inicialmente, achei a pergunta por demais descabida. Não emprestaria o livro para um quase-estranho mas poderia deixá-lo ler ali um conto, um trecho, uma passagem. Ele estava já na minha frente e, com muita descrição, exigia-me o livro, dê-me o que me prometera, ele parecia balbuciar com a boca fechada e sigilosa. Ele parecia clandestinamente feliz e eu ainda mais por dar-lhe uma centelha de literatura e beleza. Fico feliz em compartilhar essas coisas tão ínfimas para alguns, tão insigne para outros. Eu estava dando-lhe o mundo.
   - Que conto...que conto você me sugere? – perguntou desfiando um sorriso sincero.
   Disse-lhe que lesse qualquer um, abra aí e leia, eu falei. Ele sentou-se ao meu lado no banco de pedra cinza molhado um pouco encabulado. Mas o constrangimento passava nos instantes em que seus dedos desfranziam as páginas rijas. Talvez ele nunca tivesse pego um livro, sentido as nuanças e, por dois ou três minutos, crido que o leria, o desvendaria e o aplacaria em sua fúria natural. Ou não.
   Ele abriu em um conto e preferi não olhar para não o envergonhar mais. Voltei a olhar para as plantas que ficavam, não sei o porquê, mais verdes. O céu escurecia lentamente e lembrei-me de que eu já devia estar em casa. Havia um zilhão de coisas a serem feitas e eu ali, estático, observando pela primeira vez as plantas e vendo nelas certa humanidade. As flores. Peguei uma delas, a mais colorida de todas. Ela tinha cor, tinha porte, era bela. O ser humano é tão feio, eu disse-lhe em voz baixa e ela murchou num suspiro de confirmação e tristeza. Eu ainda tentei ressuscitá-la, a beleza está em você, está em suas irmãs-flores, está nos livros. Está na literatura.
   Havia novamente o silêncio do mundo enquanto ele lia o conto. Calculei que ele já deveria estar terminando-o, mas estava impassível, imperturbável. Senti-me incomodado e feliz. Imaginei que, naquele dado momento, dentro dele abriu-se uma torneira gigante despejando em suas veias e vasos um líquido espesso. Como uma catarata veloz e pesada. E ele seria todo percorrido, todo lavado em literatura. Há gente demais sedenta dela. Há mistérios demais e respostas de menos.
   Dali a dois minutos, ele enfim terminou de ler e uma lágrima escorreu dos seus olhos respingando sobre o livro. A garoa já havia cessado. Ele, antes de mais nada, apressou-se em pedir desculpas por ter molhado o livro, borrado a tinta escura. Ele não pedia perdão pela lágrima mas por ter borrado meu livro! Ele não se sentia envergonhado por encontrar em Clarice Lispector alguma espécie de resposta ou de conforto ou ainda de tensão. Ele não se envergonhava mais de ter encontrado a beleza do mundo que eu, humildemente, havia lhe apresentado


Marcos Vinícius Ferrari

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