Casmurro sem teto

"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma" (Fernando Pessoa)

Casmurro sem teto

"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma" (Fernando Pessoa)
<  Janeiro 2008  >
S T Q Q S S D
  1 2 3 4 5 6
7 8 9 10 11 12 13
14 15 16 17 18 19 20
21 22 23 24 25 26 27
28 29 30 31      
Buscar
Receba os posts
Terra Blog

07.08.07

Noturna Presença I

Devido à porcaria do provedor Terra, o texto "Noturna Presença" está dividido em duas partes. Sim, isso é ridículo. Fica aqui o meu protesto.

 

   Ele se aproximou de mim como se quisesse me pedir algo e havia no seu olhar uma doçura por mim desconhecida, uma candura trapaceira, uma aura angelical. Foi quando, não sei bem como, lancei meu corpo para frente e mergulhei no líquido espesso e verde dos seus olhos vítreos. Estava eu todo imerso na mistura densa borbulhante, quente que estava. Até que senti que uma enorme esfera negra e de parede rija crescia em espasmos rítmicos e ensaiados e expandia-se, avolumava-se silenciosamente. Meus pés cresciam e eu descia ao fundo imantado e gelado, eu parecia senti-lo, tocá-lo qual lâmina espelhada e fria. Fria também ficava a superfície do líquido e da bola negra e lisa que, a alguns centímetros de mim, girava atiçando altas ondas e pela primeira vez molhei a ali meus cabelos. Ergui a mão para retirar partículas que grudavam insistentemente em minha pele. A bola negra andou querendo esmagar-me.
   Acordei do sonho em meio ao grito esfregando minha cara com força. Respirei fundo duas ou três vezes, até recompor-me sentado na cama com as mãos amassando o lençol algodoado azul desbotado. Abri a janela e um vento violento me atingiu e tinha gosto parecido com hortelã. Fazia frio mas durante o dia fizera calor, tanto que eu e Raquel acordamos cedo, transpomos o riacho descalços, escalamos o segundo morro depois da centenária figueira para colhermos laranjas, o pé carregado. Podres!, exclamou Raquel limpando as mãos sujas de terra no vestido verde ornado de flores brancas, estas laranjas estão podres! Não acreditei, arranquei-lhe das mãos a mais polpuda fruta das cinco que ela segurava, passei-a próxima do nariz, apalpei os pólos achatadoos e escurecidos de fungos. Olhamo-nos incrédulos e descemos à casa.
   - Parece que o Tom sumiu de vez – disse ela corendo para os maracujás, cheirosos e fartos. Pegou um sacudiu-o perto do ouvido, dançou ao redor de mim como se fosse a fruta um instrumento musical, balançava-se e levava uma flor na cabeça, a flor do vestido! – Será que ele volta?
   - Acho que sim. Amanhã é domingo, é dia de festa depois da missa. Tia Cora dará um almoço para o padre. Sempre tem bons restos de comida para o Tom, pedaços gostosos de pernil. Ele sabe, ele vem.
   - Gato bem do folgado. Folgado demais, ouviu? – disse jogando o maracujá no chão – Duvido que volte. Deve estar por aí ou então achou um novo dono.
   Calei-me. Retrucar com Raquel era pura ignorância. Ela correu até o avarandado, sentou-se e cruzou as penas. Acho que ainda disse mais algumas palavras que não entendi. Ela nunca gostou do Tom. Dizia que ele era gordo, folgado, que soltava pêlos pela casa como um rastro. Especialmente porque Tom elegia a sua cama como o melhor lugar para dormir, ato quase sacro que realizava durante um terço do dia, esticado, preguiçoso, inconseqüente e vadio. A cama alta de madeira clara, o Olimpo.
   - Lembra-se do que sua mãe dizia? – disse Rachel limpando as unhas cheias de terra com um pedaço de arame que achou.
Balancei os ombros e sentei-me ao lado dela.
   - Ela dizia que um gato nunca morre em casa. Que quanto ele se sente doente, ele foge para morrer longe da casa onde viveu. Por que será?
   Elevei a cabeça levemente como se um trem viesse em minha direção a toda velocidade, as luzes no meu rosto, os olhos escuros de Raquel, a bola escura me espremendo, o líquido! Corri para longe dela, atravessei o riacho, passei pela figueira e entrei em casa. Por que Raquel foi me falar justo aquilo? Bastarda! Falasse do Tom, mas precisava falar da mamãe? Eu poderia voltar lá e dizer que minha mãe pelo menosnunca fora um bêbada e nunca esteve internada numa clínica de recuperação, caída de bêbada depois de se mamar um litro de cachaça, a mão furada por um pedaço de vidro da garrafa, os cabelos emaranhados na cara escura. Eu diria isso aos berros, sua mãe é uma doente!     
   Mas, não, não teria coragem. Sentei-me na cama e acho que dormi a o resto da manhã e a tarde toda só acordando agora depois do sonho.
Eu mergulhava nos olhos de Tom, gato manhoso, de pele rajada e meio escurecida com o tempo. Quando filhotinho, era alvo, quase não tinha as listras carameladas. Cresceu, engordou, os bigodes ficaram mais tesos, as patas mais grossas, os dentes mais afiados. Ele chegou aqui ainda pequenininho, cabia quase todo na palma da minha mão, eu o acarinhava e ele arisco. Quando me mordeu pela primeira vez, atirei-o ao chão, não quero mais esse gato, mãe! gritei com ódio. Mamãe veio da cozinha, olhou-me, sorriu com indolência e voltou.

 

(...)

2 comentários
Comente este post:




Seu e-mail não será mostrado neste site.




tags XHTML permitidas: <p, ul, ol, li, dl, dt, dd, address, blockquote, ins, del, a, span, bdo, br, em, strong, dfn, code, samp, kdb, var, cite, abbr, acronym, q, sub, sup, tt, i, b, big, small>
URLs, e-mail's, AIM e ICQs serão convertidos automaticamente.