Casmurro sem teto

"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma" (Fernando Pessoa)

Casmurro sem teto

"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma" (Fernando Pessoa)
<  Fevereiro 2008  >
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Terra Blog

07.08.07

Noturna Presença II

     (parte II)

 

     Batizei-o Tom por falta de nome melhor, creio eu. Raquel chegou a sugerir um nome que parece-me que era o nome de seu cantor favorito. Nome estrangeiro, ela dizia, nome estrangeiro. Refutei. Mamãe sugeriu um nome estranho que também não acatei. Pus Tom e sempre gostei muito. Era de fácil pronúncia e de fácil identificação. Eu e Rachel, ainda crianças, pegamos uma folha do escritório do tio Alberto, duas canetas e escrevemos uma certidão de nascimento do gato, este é o senhor Tom, Tom? É Antônio, Raquel, mas ele não gosta de ser chamado assim – dizia e levava minhas mãos às orelhas do gato que me olhava com a ironia atravessada e certeira.
   Por que esse senhor não gosta de ser chamado de Antônio?, perguntou ela pegando da pata de Tom e mergulhando na almofada de tinta. Impressão digital, ela dizia. Pressionou a pata contra o quadrado no topo da página, Tom miou de descontentamento. Solta isso, eu disse, que você não sabe lidar com gente e muito menos com gato.
   Por que esse senhor não gosta de ser chamado de Antônio se trata-se do nome dele?, repetiu Raquel levemente irritada, irritava-se fácil quando criança assim como Tom. Não gosta e pronto!, disse e ameacei levar comigo a certidão de nascimento ainda incompleta. Essa desculpa não me convence! Raquel pegou Tom no colo, acarinhou-lhe a cabeça sem muito amor ou afinco e me indagou mais uma vez.
   Não gosta porque. Porque ele não quer que saibam que ele se chama Antônio. Se descobrirem, ele está perdido, perdido! Ninguém pode saber, ouviu? Caso te perguntem se há algum Antônio nesta casa, diga que não há! Há sim um Tom, um gato, que nada tem a ver com o tal Antônio. Raquel riu e largou o gato no chão. Isso me parece furado demais, afirmou desafiando-me. Burra!, bradei assinando meu nome da certidão, burra que nem entende de pseudônimos.
   Havia um prazer secreto em pronunciar palavras estranhas na frente de Raquel que era cheia de se achar superior a mim. Guardei a certidão em algum lugar, ou Clementina jogou fora, aquela negra intrometida mexe nas minhas gavetas, lê minhas cartas, meus papéis, tira meus livros da ordem. Ela maltratava muito o pobre Tom, gato dos infernos! Não fale assim com ele, Clementina!, e olhava para a mulher alta e larga, escura e forte, incômoda e maternal. Ela ria-se sozinha enquanto espanava o pó cantando corimas e partidos da terra dela, a voz grossa, gato dos infernos!
   Depois que mamãe morreu, Tom tornou-se meu único amigo e companheiro. Raquel passou a viver com o pai na cidade e vinha aqui apenas uma ou duas vezes por mês. Sentia saudades dela, confesso. Tom também sentia, eu acho. No fundo, gostava dela, da Clementina, da tia Cora. Eu encarava seus olhos que transbordavam, à noite o núcleo negro crescia e tomava quase o espaço todo. Durante o dia, era apenas um filete imperceptível pela camada vítrea iluminada pelo sol.
   E faz duas semanas que Tom foi-se embora. Não é a primeira fez. Na primeira vez em que ele desapareceu mamãe ainda era viva. Rezamos um terço sob instrução de tia Cora, pedimos a Santo Expedito, ameacei ir de joelhos até a igreja de Nossa Senhora do Paraíso, folheava a bíblia durante a noite, pedia desesperadamente, sem vocativo específico, que Tom voltasse. No quinto dia, ele voltou, a orelha rasgada em carne viva, a pata manca, o olhar que dizia: estou bem mais quero descansar. Não permiti.  Abracei-o, contei-lhe tudo o que sofremos por ele, contei as rezas, as promessas, os mistérios gloriosos, os mistérios gozosos, e expliquei-lhe a indumentária do terço. Ele gostava de ouvir mas pestanejava de sono e canseira.
   Depois, sumiu várias vezes mais e sempre voltou, são e salvo. Mas duas semanas? Não, nunca ocorrera. “Um gato nunca morre em casa”. Tom deve ter se sentido mal e, por algum instinto que desconheço, fugiu para aliviar minha dor. Será? Mas nem se despediu? Nem roçou em minhas pernas como sinal de agradecimento ou amizade? Bastardo! Está onde agora? Esbaforido, numa encruzilhada, com a pele seca pelos raios solares, as feridas solidificadas, o sangue manchando o pêlo de que cuidei tão bem, com tanto desvelo, só Deus sabe.
   Depois de sonhar com ele, enquanto o centro negro do olho se aproximava, ouvi um barulho e acordei de súbito. É ele!, pensei. Não era. Talvez algum cachorro ladino entrou aqui, sempre entram durante a noite. Por isso, Tom sempre dormia ao lado da minha cama. Mantia-o seguro, protegido, resguardado por mais um dia. “Um gato nunca morre em casa”.
    Fiquei ainda na janela a fitar o céu e as poucas estrelas opacas. Não havia Lua. Perdi completamente o sono. Sentia-me ainda impregnado daquele líquido verde que escorria pelos braços, pelas pernas e eu sendo espremido, socorro! O olho! A parede de vidro quase estourando em mil pedaços minúsculos insuspeitados.
    Voltei a me deitar na cama. Olhei para o teto. Para o chão. Para o lugar do Tom. Para a porta entreaberta deixando escapar um fio de luz rósea. Clementina certamente assistia à televisão na sala. Devia cochilar à essa altura. Ouvi outro barulho. Pulei da cama rapidamente e me encostei à janela. Debalde. Certamente, outro cão ou um gato qualquer. A noite tão profunda e tão simples, ausente multipilicando-se, tomando conta de tudo,  inundando-nos de oxigênio líquido e negro, trazendo poeira cósmica e poeira do assoalho barulhento, doze tábuas, eu contava quando criança, atravessava o quarto contanto as placas de madeira.  Nesse escuro milagroso , a silhueta de Tom se perdia como se fosse um fio tecido à enorme manta. Tentava entender como Clementina fazia crochê, acompanhava com o dedo a linha que depois de desdobrava, virava outras e virava uma gola que virava uma manga que virava uma blusa, toma, é para você. Tom tecido no escuro e o hálito de hortelã batendo na minha cara com um leve gosto de licor no fundo da boca.



Marcos Vinícius Ferrari

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